Crónica de Tiago Mesquita: A vida do meu cão não vale mais do que a de Anders Breivik?

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O ser humano tem uma característica que o distingue dos demais animais, mas que frequentemente se vira contra ele: é racional. A racionalidade pode ser muito útil quando utilizada de forma sensata e razoável, mas tem um problema: deixa a descoberto outra faceta do ser humano – a estupidez.

A racionalidade devia, pela lógica, obrigar o ser humano a uma responsabilização que impedisse que notícias como esta fossem possíveis: “Um grupo de 50 ativistas conseguiu resgatar mais de mil gatos que passaram várias horas sem água nem alimento, presos em jaulas num camião. O destino? Serem vendidos a restaurantes”. (Visão – 15 de Janeiro de 2013)

Até porque a estupidez humana revela-se, e de que maneira, quando o homem, dentro da sua racionalidade, se põe – sabe-se lá por que motivo – numa posição de supremacia em relação aos restantes animais que fazem parte deste mundo tão escavacado pela santa humanidade. Quando isto acontece, o ser humano consegue ser mais irracional que a maioria dos seres vivos irracionais, até porque não tem a desculpa que estes têm. Não pode, nem deve, o bicho homem em circunstância alguma, arrogar-se de ser uma espécie mais valiosa. Nunca. É um perigoso exercício.

Por isso, ao ler a opinião do meu colega de blogues do Expresso – Daniel Oliveira – (num texto acerca da recente polémica em torno do abate, ou não, do Zico, um cão que tragicamente vitimou uma criança) e ao vê-lo afirmar peremptoriamente que “os animais não têm, para os humanos, o mesmo estatuto das pessoas. E quem acha que têm não percebe porque consideramos a vida humana um valor absoluto e indiscutível. Resumo assim: a vida do humano mais asqueroso vale mais do que a vida do animal doméstico de que mais gostamos. Sempre.” só posso dizer que, para além de ficar atónito, não concordo. Em absolutamente nada.

Em primeiro lugar, convém a Daniel Oliveira não esquecer que os humanos são animais. Em segundo, o problema relativamente aos animais (não humanos) é não existir, neste país, legislação que os proteja. Os animais, nomeadamente os domésticos, são em Portugal, aos olhos da lei, ‘coisas’. Tais como os telemóveis ou os automóveis. ‘Coisas’ que, por esse facto, podem abater-se com relativa facilidade. E isto acontece precisamente porque, como refere, e bem, Daniel Oliveira, “Os animais não têm, para os humanos, o mesmo estatuto das pessoas”. Pois. É justamente por serem diferentes – mais vulneráveis do que os humanos, ou tão vulneráveis como alguns (caso dos idosos, crianças ou pessoas com deficiência) – que deveriam ser protegidos pelos animais ditos racionais. E não são.

Para finalizar, devo dizer que, ao contrário de Daniel Oliveira, não como carne. Amo animais, não me fico pelo “gosto”. Têm estado sempre presentes da minha vida. E devo acrescentar que a vida do cão que faz o favor de me aturar, e que amo como família, vale muito mais do que a vida do ser humano mais asqueroso deste planeta. Aliás, vale para mim infinitamente mais do que a vida de muitos – ditos racionais -, que não passam de seres humanos desprezíveis, que nada acrescentam ao mundo senão dor, sofrimento, morte, humilhação e tragédia. Bestas capazes de matar descontraidamente 77 pessoas numa tarde de sol. Incapazes de dar ao mundo o que tantos amigos de quatro patas dão.

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