Activistas criam “outdoors” contra a exploração animal e querem levá-los a todo o país

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Por Mariana Correia Pinto

Lutam por quem não tem voz e sonham com o dia em que os animais nao sejam vistos como um objecto. É preciso uma nova lei e mudança de hábitos.

Pesquisem sobre o assunto e percam alguns minutos a pensar nele. O pedido é feito por oito activistas ligadas à causa animal (e não só) e esconde uma forte convicção: “Quero acreditar que as pessoas o fazem inadvertidamente, se houvesse reflexão seria diferente”, declara Bebiana Cunha. Aqui fala-se da exploração animal que alguns fazem e com a qual muitos outros compactuam – fala-se de ética, de uma lei desadequada que continua a ver os animais como “coisas” e não como seres vivos. Mas já lá vamos.

Tudo começou numa troca de emails feita entre oito pessoas (na foto falta uma) que se conheciam de “outras lutas” em nome dos animais. Unia-as a vontade de fazer algo que ajudasse a consciencializar a sociedade para o tema da exploração animal. Estávamos em Maio de 2012.

Quando a ideia dos cartazes surgiu (mérito para Bebiana Cunha) perceberam que podia ser aquele o projecto. Sara Branco assumiu a câmara fotográfica, Daniela Graça ficou responsável pelo design, todas (à excepção de Sara, que ficou do lado invisível) deram a cara pela causa – Bárbara Branco, Diana Loureiro, Inês Zilhão, Joana Dumas e Sandra Pereira completam o grupo.

Para já, a campanha está ainda na gaveta. Mas pronta a usar: “Apelamos a que haja alguém que queira aproveitar a nossa boa vontade e a nossa imagem, pegar na campanha para chegar a mais gente”, diz Bebiana. São sete os cartazes que as activistas sonham ver espalhados em “outdoors” pelo país e que, esperam, possam ajudar à “tomada de consciência” e a uma “alteração do paradigma em relação à ética animal”. No Facebook criaram a página “Qual é o teu cartaz?“, que quer juntar mais gente, mais causas e mais informação – e convida todos os que tenham uma ideia a partilhá-la em formato de cartaz.

Campanha sem radicalismos

Esqueçam radicalismos, apesar de essa ser uma acusação que lhes é feita muitas vezes: “Dizem muitas vezes que só defendemos os animais e não queremos saber das pessoas. Não é real, não queremos saber só dos animais, somos pessoas preocupadas com todos os que não têm poder, que estão desempregados, que não têm voz… e os animais são um deles.”

O objectivo último desta acção é operar uma “mudança de legislação” que permita que “os animais deixem de ser vistos como objectos, como coisas, e passem a ter o direitos enquanto seres vivos que são” (há uma petição online pela mesma causa, uma nova lei de Protecção dos Animais em Portugal, que já conta com mais de 60 mil assinaturas).

Quem perder alguns minutos a pensar nas linhas seguintes vai alterar alguns hábitos – palavra (ou esperança) destas activistas. Faz sentido a criação de animais em “verdadeiros campos de concentração” (“não há outro nome para a forma como os animais são colocados em espaços de um metro quadrado, para a forma como são explorados, a maior parte das vezes sem luz e sem acesso a espaços exteriores”, defende Bebiana Cunha)? Faz sentido as vacas estarem “constantemente prenhes para poderem produzir leite para os humanos consumirem”?

Faz sentido “devastar a Amazónia” em busca de óleo de palma para produção de soja, que “serve maioritariamente para alimentar o gado”? Acreditam que “a produção de gado em termos de emissão de CO2 e de poluição dos lençóis freáticos é o maior poluente que nós temos”? Sabiam que alguns elefantes são “treinados sob metal a escaldar” com sons (condicionamento clássico de Pavlov) para aprenderem a levantar a pata no circo e dessa forma entreterem o ser humano? Que “um elefante em ‘habitat’ natural dura até aos 70 anos e no circo até aos 14/ 15 anos”?

Por quê comprar um animal se há “milhares abandonados e à procura de um dono”? Em nome de quê se usam peles “manchadas de sangue e de sofrimento”? Por que razão “fazemos do sofrimento do touro um espectáculo”? Se existem métodos alternativos e a fiabilidade dos testes em animais “nem é assim tão grande”, “porque torturamos animais”.

As perguntas lançadas querem ajudar a construir uma sociedade mais equilibrada e menos centrada no ser humano (“acho que continuamos a ter o complexo de Deus”, lamenta Daniela Graça), também em nome da “sustentabilidade e de gestão do planeta”. “Até porque, se pensarmos um bocadinho, percebemos que tudo isto só acontece para alimentar indústrias poderosas”, acrescenta Bebiana Cunha.

Não defendem que temos todos de ser vegans (como Bebiana é), mas acreditam que pequenas acções podem fazer a diferença. Como a de Sara Branco, que passou a comer carne menos vezes e só compra carne biológica, ou como a “Segunda-feira sem carnes”, relembra a irmã, Bárbara Branco, a que vários países já aderiram e que “poupa muitas vidas”. “Acreditamos que podemos construir uma rede, eu influenciei a minha irmã, ele pode influenciar mais gente e por aí adiante”, diz Bárbara.

Para que a mudança seja efectivada, é preciso mais “aposta na educação, de preferência logo nas escolas”, defende Bebiana Cunha: “Falta ética animal, pensamos sempre na lógica humana, mas temos de perceber de uma vez por todas que tudo está ligado.”

A verdade, garantem, é que há alternativas que não implicam sofrimento de seres vivos. Roupa sintética em vez de peles, circos sim, mas sem animais, adoptar animais em vez de comprar, não usar animais para fazer testes, preferir carne biológica e reduzir (ou eliminar) o consumo. Touradas e lutas de cães nunca. Bebiana atira a pergunta final: “Qual é o sentido, quando estamos a falar de seres vivos que têm sentimentos, que pensam, que planeiam, que executam, que sofrem, que manifestam por nós afecto… qual é o sentido de chamarmos a um animal uma coisa e tratá-lo como tal?”

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