O voo do condor: As touradas no Peru ameaçam o futuro da ave rara dos Andes

CondorThe Guardian (traduzido)

Por Jonathan Watts

Num festival de montanha bem alto nos Andes peruanos, uma banda filarmónica e o ruidoso altifalante anunciam a chegada do espetáculo mais aguardado.

Com as asas de um anjo e os cornos de um diabo, a tonelada de vida que se revira e carrega sobre a arena a princípio parece uma besta mitológica estranha.

Bufando e atirando poeira, o híbrido – um touro enraivecido com um condor amarrado ao seu dorso – entusiasma uma multidão que o vê enquanto entra na arena e se excita quando repetidamente tenta atacar o matador. Quanto mais próximo a besta enraivecida está de uma ligação fatal, mais altos são os gritos de “Olé!”.

O espetáculo é dramático, cómico e trágico ao mesmo tempo. Enquanto o touro dá o som e a fúria, o condor dos Andes no seu dorso cria uma visão ridícula e patética enquanto oscila para frente e para trás, batendo as asas para tentar reter o equilíbrio.

O ritual é concebido de forma a mostrar o triunfo da cultura indígena sobre a influência colonial. A ave rara dos Andes monta o símbolo da virilidade espanhola e é depois libertada, enquanto os touros são frequentemente mortos.

Mas há acidentes. A ave gigante – a maior no hemisfério ocidental – perde penas e arrisca-se a partir ossos ou ser morta se o touro bate contra uma parede ou tropeça e cai de lado.

Estes costumes poderiam ser pouco notados no exterior se fossem raros e a população de abutres dos Andes fosse abundante. Mas o oposto é verdadeiro, o que tem criado um problema de conservação crescente.

“Sabemos que há até 55 festas Yawar por ano, algumas das quais usam vários condores. E alguns condores estão a morrer.

Indubitavelemtne é uma ameaça para uma espécie que está com um nível de população muito reduzido,” diz Rob Williams, coordenador para o Peru da Sociedade Zoológica de Frankfurt, que estima que existirão apenas 300-500 no Peru. “Estamos num ponto de viragem e se pressionarmos os condores muito mais para além deste ponto será muito difícil para eles recuperar.”

A origem das fiestas é obscura. Locais dizem que datam desde antes dos Incas. Mas é impossível que tenham havido touradas antes de 1528, quando Francisco Pizarro trouxe a tradição de Espanha. Agora os eventos casam estas influências coloniais com o condor – considerado como um mensageiro entre a terra e os céus.

Em Ihuayllo, uma aldeia com várias centenas de pessoas a 3,100 metros de altitude, o festival começa com um desfile do seu condor aprisionado, que é vestido e arrastado pelas ruas na ponta das asas, acompanhado por uma banda filarmónica e os vivas de locais que dançam.

É um evento ruidoso, com dois dias, alimentado pela bebida de milho fermentado chicha e marcado por muito sangue. Um touro é atirado para a arena e depois a sua garganta é golpeada e os seus chifres cortados no meio da multidão. Pouco depois, um espetador é ferido depois de entrar na arena embriagado. Sangrando da barriga, é levado para a clínica da aldeia. Vendo-o a ser levado, um local encolhe os ombros e diz: “É um festival. Isto é normal.”

A glória ensanguentada dos Yawar foi tornada famosa pela novela de 1941 com o mesmo nome, com o subtítulo Festa de Sangue por José María Arguedas, um autor, antropólogo e defensor da cultura Quechua conhecido como o Hemingway dos Andes.

O seu livro raramente menciona o condor, mas uma imagem de um pássaro está quase sempre na capa. Em parte como um resultado disto, as comunidades que nunca usaram um condor nos seus festivais Yawar agora fazem-no com cada vez maior frequência.

“Isto mudou muito nos últimos 40 aons. Muitas pessoas por causa das suas crenças na importância cultural da festa Yawar – por causa do livro de Arguedes – começaram a fazer festivais Yawar,” diz Williams. “Muitas destas cidades que dizem que é uma tradição muito importante estão na realidade a fazê-lo há 20, 30 ou 40 anos.”

A economia crescente do Peru traz mais pressão. Com o PIB a crescer a cerca de 6% ao ano, cada vez mais migrantes rurais estão a enriquecer nas cidades e a voltar depois para as suas aldeias natal com dinheiro suficiente para patrocinar uma festa Yawar – o maior símbolo de status.

Samuel Rojas, o patrono da festa em Ihuayllo, trabalha para uma empresa comercial de Lima. Está orgulhoso de dar dinheiro para o condor – sem os quais os festivais se arriscam a tornar-se numa seca.

“Sinto-me tão sortudo porque este ano, o meu ano, conseguiram apanhar um condor,” diz sobre um copo de chicha. “Se um condor não for apanhado as pessoas podem ficar tão desapontadas que por vezes nem vão ver a tourada.”

As cordas que prendem o condor são cosidas no dorso do touro. Agitado pelos ferimentos nas costas, o batimento de asas sobre a cabeça e as provocações do matador em frente dos seus olhos, o touro enraivecido avança sobre o ringue com o condor a balançar de um lado para o outro.

Não há nenhum dado definitivo sobre a mortalidade de condores em festivais Yawar, mas ambientalistas estimam que 10% a 20% são mortos durante as lutas, enquanto outros partem ou deslocam ossos e podem ter de lutar pela sua sobrevivência depois da sua libertação.

Enquanto outros fatores – caça, perda de habitats e a modernização da agricultura – também desempenharam um papel no declínio do condor, os festivais são muitas vezes vistos como uma ameaça ilegal e crescente.

O condor – uma das maiores aves do mundo, com uma largura de asas de três metros – é suposto estar protegido por um decreto presidencial de 2004. Mas a polícia, os juízes e os líderes das comunidades juntam-se aos festivais, que são regulados ao nível local apesar de serem proibidos pelas leis nacionais.

O irmão do patrocinador, Donato Rojas, diz que as autoridades provinciais dão autorização às festas Yawar para usarem condores, que são normalmente capturados usando um cavalo morto como isco. “Mas se a ave morre na luta, pode haver multas ou prisões.”

Há não muito tempo, a ave reverenciada era também vista como uma peste e uma ameaça. Alguns donos de gado ainda ficam mais felizes se os condores forem mortos acidentalmente. “Prefiro que morram porque atacam o meu gado. Todos os aons comem seis ou sete bezerros e isso prejudica-me,” diz Victor Tello, um ganadeiro vestido, como muitos festivaleiros, em trajes andinos de cores fortes.

Participantes embriagados tentam arrancar penas às aves enquanto estão aprisionadas perto da arena antes da tourada, mas os tratadores dos condores afastam-nos.

O presidente da câmara de Ihuayllo, Bruno Guillen, nota que os regulamentos são feitos para proteger a ave. “O condor é o símbolo da nossa região, Apurímac, e cada ano temos um festival com um condor,” diz. “Limitamos a sua participação na arena a três ocasiões, depois é devolvido aos tratadores. Depois é libertado numa cerimónia de despedida, com a sua coroa e dinheiro, como agradecimento, e regressa à sua casa.”

A cerimónia toma lugar no dia a seguir às lutas. Em Ihuayllo, os tratadores dão ao condor um copo de chicha de despedida, amarram um lenço com dinheiro ao pescoço e depois a banda filarmónica toca enquanto a ave estica as suas asas feridas, salta para uma rocha e espera por uma corrente ascendente de ar. Mesmo na natureza, as criaturas pesadas parecidas com abutres não conseguem suportar o seu próprio peso sem a assistência de uma corrente de ar. Com o trauma acrescido da captura e das touradas, a ave libertada luta para reclamar a sua liberdade.

Com uma multidão a assistir, o condor por duas vezes falha em levantar voo, bate freneticamente as asas abaixo a escarpa e bate de forma trapalhona contra um arbusto antes de ser arrastado de novo para o alto. À terceira tentativa, os espetadores estão ansiosos. A banda fica silenciosa.

O patrocinador abana os braços como asas incentivando o condor, sabendo que uma ave morte não representa apenas má sorte mas pode implicar uma multa. Desta vez, contudo, o condor descola e voa para os picos, despoletando um cortejo de fogo de artifício e uma música celebratória da banda filarmónica.

“El Cóndor pasa!” exclama um jovem observador, olhando para a ave enquanto viaja em torno da aldeia.

Quanto tempo mais o condor e o Yawar continuarão a gracejar os Andes depende provavelmente na capacidade do festival passar por outra evolução para acrescentar a mais moderna das ideias – a conservação – à mistura de tradições locais e influências estrangeiras que já constituem a festa Yawar.

Williams e outros querem continuar a trabalhar com os governos centrais e locais para mudar atitudes enquanto mantêm a cultura tradicional. “Se não conseguimos conservar o condor dos Andes aqui, então não o conseguiremos conservar em lado nenhum,” diz.

Nota da Redação: O artigo é aqui reproduzido por ilustrar em que consiste o cruel festival Yawar, no Peru, apesar de não adotar um tom crítico. Para nós, o respeito pela diversidade cultural é um princípio a observar, mas nunca pode ser usado para defender a manutenção de práticas atentatórias da integridade física de humanos ou animais não humanos. Da mesma forma que as comunidades indígenas inventaram uma tradição com a sua versão das touradas, também poderão reinventar os seus costumes de forma a encontrarem formas de convívio e diversão que não envolvam crueldade para com animais como touros ou condores. Afinal, como dizia em tempos um reclame, a tradição já não é o que era.

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One thought on “O voo do condor: As touradas no Peru ameaçam o futuro da ave rara dos Andes

  1. E triste o q se vê nesses festivais, o sofrimento dos animais enquanto o povo bebe e comemora aos risos. A cultura é sem dúvida, de grande importância, mas a que preço? De se prejudicar os pobres pássaros, que independente de estarem perto de extinção ou não, são animais indefesos e nós, humanos, diferente dos animais predadores, temos noção disso. E os touros, que machucados e mortos, são simplesmente tratados como a parte ruim de uma história de sei lá quantos séculos atrás. De fato, a cultura dos povos tem de se adaptar a época atual que pede isso para o bem de todos.

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