Dois dias no futuro

viviseçãoEsquerda

Por Luísa Bastos

Já no século XIX Darwin defendia que não existem diferenças fundamentais entre as faculdades mentais de um ser humano e de um outro grande primata. Mais, em coerência com a sua teoria da evolução, ele defendia que a diferença entre a inteligência de um animal humano e a inteligência de um animal não humano é uma questão de grau e não de tipo1. Ou seja, a diferença encontra-se num contínuo contendo escalas de cinzento e não numa distinção binária.

Foi assim que começou a primeira conferência internacional de alternativas à experimentação animal (ICAAE)2, quando Mark Bekoff nos mostrou como os resultados de estudos etológicos vão de encontro a esta ideia. Bekoff apresentou-nos a complexidade das vidas emocionais de muitos animais não-humanos, defendendo que as emoções destes animais devem ser da maior importância para os seres humanos, influenciando a forma como os tratamos.

Andrew Knight apresentou-nos uma outra face das diferenças entre animais humanos e não humanos. Através de revisões sistemáticas da literatura científica, Knight mostrou que a contribuição da experimentação animal para o progresso da biomedicina é irrisória. Este resultado decorre de diferenças entre espécies, da variabilidade e da (im)previsibilidade biológica, de canais de exposição diferentes, das consequências somáticas do stress provocado nos animais no laboratório, assim como de falhas metodológicas. Segundo Knight, muitas destas falhas têm um caráter tão fundamental que podem ser tecnicamente e teoricamente impossíveis de corrigir.3

Durante dois dias foram apresentadas metodologias científicas livres do uso de animais4, que provam ter uma eficácia e um potencial que nunca foi atingido pelos métodos baseados na experimentação animal. Estas metodologias prometem não só um melhor avanço do conhecimento, como também uma maior segurança para a saúde humana e não humana, quer por uma maior eficácia nos testes de novos medicamentos, quer por testes de toxicologia com resultados significativos e mais abrangentes.

O conhecimento crescente acerca das capacidades e interesses de animais não humanos levantam questões éticas cada vez mais complexas acerca do uso destes seres para os nossos fins, ao mesmo tempo que se prova que a experimentação animal não serve um dos seus principais objetivos.5

Com esta compilação de conhecimento, chega a altura de pensar a política científica.

Mesmo se a experimentação animal não fracassasse na biomedicina, o facto de privarmos seres dos seus interesses mais básicos, como a liberdade e o bem-estar, pressionam-nos a procurar outros caminhos.

A crescente evidência do fraco contributo da experimentação animal para as ciências biomédicas apenas nos pode dar mais força para lutar por um financiamento da investigação que promova o progresso científico com métodos mais fiáveis e éticos, em detrimento de uma aposta sistemática na experimentação animal.

O futuro da investigação pode ser justo, ético e sério. Mas para isso, teremos de mudar o paradigma atual, deixando de aceitar que o uso de animais seja natural, normal e necessário.


2 A ICAAE (http://icaae.com/) decorreu no final do mês de Janeiro, em Almada, e foi organizada pela Sociedade Portuguesa para a Educação Humanitária (http://spedh.pt.vu/).

5 O focus deste artigo é a investigação que tem como principal objetivo promover avanços na área da saúde. Outras áreas onde a utilização de animais é fomentada incluem a investigação básica nas ciências da vida e estudos comportamentais. Na investigação básica existem também esforços para substituir o uso de animais (ver por exemplo o Virtual Physiological Rat –http://virtualrat.org/ – e o Virtual Physiological Human – http://www.vph-noe.eu/). Os estudos comportamentais em laboratório são altamente contestados pelas alterações inevitáveis induzidas pelo ambiente artificial. Estudos etológicos (no ambiente natural) não invasivos ou minimamente invasivos são métodos mais promissores para o estudo do comportamento animal.

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