Relato de uma Testemunha – para o que e para quem possa servir

Logo AnimalPublicamos uma nota da Rita Silva, Presidente da ANIMAL, publicada originalmente no Facebook, acerca da repressão policial à manifestação antitouradas em Viana.

Quando comecei a trabalhar na ANIMAL, há 10 anos atrás, fi-lo não só porque havia decidido dedicar a minha vida à Causa mas também porque me identifiquei sempre com os princípios desta Organização. Um destes princípios era o da não-violência. Defendo que devemos ser activos e nunca passivos, mas pacíficos, quando estamos em defesa de interesses e direitos fundamentais de quem não se pode defender a si próprio. Dos grandes movimentos sociais – sendo que o Movimento de Defesa dos Direitos dos Animais é o 3.º grande movimento social da História – este é aquele em que se defendem indivíduos não-humanos, e, por essa razão, é ainda mais passível de ser atacado, pois, em geral, enquanto humanos, sentimo-nos menos empáticos para com os de uma espécie diferente da nossa. Desde que me juntei a esta casa que já tive a minha integridade física posta em causa inúmeras vezes, bens materiais destruídos, já para não mencionar as ameaças diárias que recebo. Contudo, este foi um efeito secundário que aceitei quando aqui cheguei porque sabia que fazia parte do trabalho e da decisão que havia tomado. Escolhemos o comportamento, escolhemos as consequências, não é verdade? Não me queixo e nem me admiro de que gente que ganha a vida e/ou que retira prazer em explorar, torturar e matar animais sencientes use de todas as formas de violência possíveis para tentar combater quem se opõe a esse comportamento. Nos tempos idos (confesso que já não sou do tempo em que os manifestantes apanhavam pancada da polícia mas tenho muitos colegas a quem isso sucedeu) as forças da segurança não compreendiam bem nem estavam acostumadas a este tipo de contestação social, de modo que por vezes algumas manifestações terminavam em detenções e até mesmo em alguma forma de violência, quer de um lado, quer de outro, diga-se em boa verdade. Era tudo muito novo por cá e a revolta por vezes gerava comportamentos menos próprios e que, infelizmente, levavam a que o lado da razão a perdesse. Em todo o caso, estes episódios foram excepções à regra, e conforme referi, foram num passado longínquo.

Pela parte da ANIMAL, salvo algumas excepções em que se encontram agentes policiais menos preparados ou menos educados (como em qualquer área), só posso dizer que a nossa experiência é bastante positiva. Pedimos presença policial em todas as manifestações, não só porque é um direito que temos, mas também porque já “não estamos para” ser agredidos por aqueles que defendem as infames actividades contra as quais nos opomos. Tratamos toda a gente com dignidade e respeito, conhecemos os nossos deveres enquanto cidadãos e Organização, mas também conhecemos muito bem os nossos direitos constitucionais.

Posto isto, e porque esta introdução já vai longa e não pretendo maçar-vos, gostava de vos falar acerca da vergonha que ontem sucedeu em Viana do Castelo. O que eu vi ontem – ninguém me contou, eu vi – foi um conjunto de atentados aos direitos, liberdades e garantias de qualquer cidadão ou grupo de cidadãos. Depois de ter sido salva por um repórter de imagem da SIC de ficar sem uma perna – a quem aproveito para agradecer publicamente -, o que sucedeu devido ao facto de um aficionado me ter tentado atropelar a alta velocidade, pedi ao agente mais próximo de mim que o identificasse de imediato e a resposta (novidade para mim) que recebi foi que não lhe dissesse como fazer o trabalho dele e me calasse. Portanto, temos uma cidadã que quer apresentar uma queixa imediata contra um atentado à sua integridade física que é mandada calar por um agente que a deveria proteger. Mais tarde, e no meio de uma grande confusão em que nitidamente os agentes não faziam a mínima ideia de como organizar ou controlar uma manifestação (pensámos que a formação fosse igual para todos) percebemos que metade dos nossos colegas estavam retidos do lado contrário ao nosso, juntamente com os organizadores, impedidos de virem para o local da manifestação e rodeados de agentes do corpo de intervenção que empunhavam armas semi-automáticas! Isso mesmo! Enquanto um grupo de pessoas com um grave distúrbio se divertia a seviciar bovinos, humanos pacíficos tinham armas de fogo à sua volta, como se de terroristas se tratassem! Bem, depois de tudo isto só posso dizer-vos que foi o caos completo. Fomos empurrados de um lado para o outro, maltratados, fomos enfiados num canto ridículo a uma distância imensa de onde sucedia a tourada (e sim, eu sei o que é uma distância razoável para manter a segurança, e não foi o caso, pois estes agentes só criaram insegurança e não segurança). Foram eles que criaram TODA a insegurança!

Já atrás das grades, enquanto tentava denunciar o que se estava a passar, fotografando e filmando vários horrores que ia ouvindo da boca dos agentes do corpo de intervenção, que notoriamente pareciam estar a retirar algum sádico prazer no que estavam a dizer e a fazer, um rapaz que estava ao meu lado direito, EM SILÊNCIO, leva um murro na boca e fica sem um dente. Esse murro veio da mão de um desses agentes! O pobre rapaz tremia por todo o lado enquanto sangrava da boca e os jornalistas começaram a aproximar-se de nós para ver o que se passava e retirar imagens. Foi nesse momento, em que enquanto estava a ser entrevistada para a SIC, esse mesmo agente agarra num outro operador de camera – que também estava a gravar – pelos ombros e literalmente o atira para o outro lado da rua. O seu comentário seguinte foi “vê lá o que é que publicas”.

Senti a minha integridade posta em causa bem como a dos meus colegas, vi uma garota ser arrastada pelo pescoço – qual filme de acção de 5.ª categoria – por um agente do corpo de intervenção. Uma garota que simplesmente estava a exercer o seu direito à resistência. Um dos meus colegas estava junto a uma rapariga que pediu a identificação a um agente depois de ele ter insultado a sua mãe, também ali presente, e a resposta que recebeu foi “para quê? Para me ligares logo à noite?”

Foi isto, meus amigos, foi isto que sucedeu ontem em Viana. Foi um caso de repressão policial a este Movimento que é de paz! Garanto-vos que tudo farei para que se faça correr tinta fora de Portugal para que se saiba a que ponto chegámos neste país. Sim, porque o que ontem se passou é um sintoma grave de um Estado de Direito DOENTE.

Hoje mesmo seguiu uma carta para cada um dos líderes dos Grupos Parlamentares, bem como para o Senhor Primeiro Ministro e para o Senhor Ministro da Administração Interna.

Ontem à noite a equipa da ANIMAL esteve na PSP de Viana do Castelo apresentando queixas formais acerca de tudo isto. Temos provas documentais e testemunhais e repito que “não brincamos em serviço”. Para nós esta Causa é tão séria quanto a nossa própria vida e não vamos permitir que direitos fundamentais sejam postos em causa. Peço encarecidamente a todas as pessoas que estiveram ontem presentes para que se desloquem também à Esquadra e não deixem de apresentar queixa. É muito importante que façamos valer os nossos direitos. Não desistam! Por vós e pelos animais que defendem!

Para terminar gostava de deixar também uma nota quanto ao facto de Viana do Castelo ser ou não uma cidade anti-touradas, que é! Não daremos um minuto de descanso a esses senhores dessas associações tauromáquicas, que cheios de dinheiro alugam avionetas, publicidade de dezenas de milhares de euros, e contratam seguranças privados com cães treinados para atacar (além da PSP ainda contámos com mais esta pérola) e garantimo-vos que as touradas (como eles bem sabem) têm os diazinhos contados. A ética vence sempre! Não temos dúvidas de que muitos dos comportamentos violentos de ontem foram encomendados, e não temos medo de o dizer. O dinheiro não compra tudo. A nossa consciência não está à venda e não somos reles ao ponto de entrar em ataques pessoais para fazer valer a nossa posição.

Coloco a ANIMAL à disposição de quem precise de testemunhas. Estejam à vontade para nos contactar.

Rita Silva
Activista pelos Direitos dos animais
Presidente da Direcção da ANIMAL

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