Ovos de papagaio são o negócio de ouro dos traficantes de animais

PapagaiosPúblico

O telefone tocou às seis da manhã. Nada de anormal para João Loureiro, chefe da Divisão de Gestão de Espécies de Flora e Fauna do Instituto Nacional de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF). Loureiro está acostumado a ser chamado a qualquer hora. Neste caso, foi convocado ao aeroporto da Portela, em Lisboa, onde uma mulher proveniente do Brasil trazia 61 ovos de papagaio, embrulhados em papel e enfiados em meias, o conjunto todo enrolado à volta da cintura, por baixo da camisa.

Esta apreensão, ocorrida em Maio, revela apenas a ponta do icebergue daquele que é hoje o principal negócio no contrabando de espécies vivas em Portugal: os ovos de aves que, mais tarde, valerão milhares de euros. Há já uma década que este comércio ilegal começou a ganhar fôlego. É uma forma habilidosa de se contornar a dificuldade em transportar para um país, às escondidas, aves vivas capturadas no seu habitat natural.

Antes, enrolavam-se papagaios em panos molhados, para baixar o seu metabolismo e garantir que estavam quietos durante a viagem e sobretudo na alfândega. Na maior parte das vezes, permaneciam de bico calado para sempre. “Chegavam cá mortos”, afirma João Loureiro. Depois, descobriu-se a que temperatura do corpo humano é semelhante à da incubação dos ovos, ou seja, mantê-los junto à barriga era a melhor forma de conservar os ovos vivos, que acabariam por eclodir já no destino final.

Desde então, multiplicaram-se casos de importação ilegal por esta via. Entre 2002 e 2004, foram apreendidos cerca de 90 ovos por ano em Portugal. Era apenas uma pequena amostra de um tráfico em larga escala. A investigação então lançada pela Polícia Judiciária, em conjunto com as autoridades aduaneiras e o ICNF, concluiu que, só em Dezembro de 2003, terão entrado ilegalmente no país 3000 ovos de espécies cuja comercialização está proibida ou condicionada pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção – conhecida mundialmente pela sigla CITES.

A investigação levou ao desmantelamento de quatro redes de contrabando de espécies selvagens em Portugal. Sete pessoas foram condenadas a penas entre um ano e meio e quatro anos e meio de prisão. Durante cinco anos a partir de 2004, não houve mais apreensões. Mas em 2009, a actividade recrudesceu. Nesse ano, houve um caso, em 2010 houve outro e em 2011 as autoridades fizeram seis apreensões, num total de 160 ovos.

O episódio de Maio passado – divulgado apenas na quarta-feira passada pela Polícia Judiciária, através de um comunicado de imprensa – é mais um nesta sequência. O “correio” era uma sexagenária reformada. Foi detida em flagrante, submetida a julgamento sumário e aguarda agora em liberdade a decisão do tribunal.

À importação ilegal de ovos associa-se um mercado negro de documentos de legalização de animais, exigidos pela CITES. Há, segundo João Loureiro, um comércio de certificados de animais que já morreram, de modo a “branquear” outros que venham a entrar ilegalmente no país. “Temos mais araras-jacintas do que na Europa toda. De certeza que estes bichos não existem”, diz.

Os ovos apreendidos agora em Maio não são de arara-jacinta (Anodorhynchus hyacinthinus), mas sim de outra espécie de Psittaciformes, a ordem de aves que inclui pagagaios, araras, periquitos, cacatuas e afins. Identificar a espécie – entre as quase 400 existentes – é impossível olhando-se apenas para os ovos. Mas neste caso o cruzamento de dados e um golpe de sorte facilitou a tarefa. A altura do ano em que foi feita a apreensão coincide com a época de procriação de apenas meia dúzia de espécies no Brasil. E só uma delas – o papagaio-de-cauda-curta (Graydidascalus brachyurus) – é que tem a penugem amarela que João Loureiro identificou num embrião de um dos três ovos que vinham quebrados.

Os ovos que entram no país dão lugar a aves que, depois de ultrapassar a infância, chegam a render quantias fabulosas. Um casal de araras-de-cauda-curta pode ser vendido por cerca de três mil euros. Outras espécies são ainda mais valiosas. O papagaio-chauá (Amazona rhodocorytha) chegou a valer, há alguns anos, seis a oito mil euros o casal. Mas tantos entraram no mercado, que o seu preço caiu para cerca de dois mil euros. Já a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari) – uma espécie raríssima do Brasil – tem um valor que pode chegar aos 80 mil euros.

O tráfico ilegal de ovos representa um problema acessório para quem o combate: o que fazer com os animais, que chegam prontos a sair da casca. Em poucos dias estão cá fora, o que coloca desafios logísticos. “Nascem nas nossas mãos”, ironiza João Loureiro. “Quando são bebés, têm de ser alimentados de duas em duas horas. Mesmo adultos, comem duas vezes por dia”, explica.

A maior parte dos ovos apreendidos em Maio vingou e são agora papagaios, a cargo de um parque zoológico. O melhor seria devolvê-los à natureza. Mas, segundo João Loureiro, as regras de controlo sanitário do Brasil não o permitem. “Matá-los não vamos”, garante Loureiro.

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