Como é que os bonobos gerem as suas emoções? Como as crianças

bonoboPúblico

Conceituado primatólogo analisou como é que os bonobos, os nossos parentes mais próximos em conjunto com os chimpanzés-comuns, lidam com as emoções. Estudo incluiu bonobos órfãos num refúgio

Cena possível no santuário de bonobos perto da capital da República Democrática do Congo: dois jovens envolvem-se numa escaramuça, o que perde afasta-se em gritaria. Não tarda muito, outro jovem bonobo vai reconfortá-lo, abraçando-o. Este tipo de comportamento em que há reconforto físico, observado no Santuário Lola ya Bonobo, em Kinshasa, foi analisado pela equipa de Frans de Waal, do Centro Nacional de Investigação de Primatas Yerkes, da Universidade de Emory, nos EUA. E o que revelaram cenas como aquela, segundo a equipa deste primatólogo, é que os bonobos conseguem pôr-se no lugar dos outros. Ou seja, têm empatia pelas emoções dos outros, tal como fazem as crianças.

Frans de Waal e a sua colega Zanna Clay publicaram ontem estes resultados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

Os bonobos, ou chimpanzés-pigmeus, foram descobertos em 1929, graças a um crânio num museu colonial belga. Quase do tamanho dos chimpanzés-comuns, os bonobos têm como habitat natural apenas a República Democrática do Congo. Mas enquanto os bonobos são muito sociáveis, afectuosos e geralmente pacíficos, os chimpanzés-comuns são mais agressivos, chegando a guerrear grupos rivais. “Entre os bonobos, não há guerras mortíferas, pouco caçam, não há dominação masculina e há muito sexo”, descrevia-os Frans de Waal no seu livro Our Inner Ape – A Leading Primatologist Explains Why We Are Who We Are. “Se os chimpanzés são a nossa face demoníaca, os bonobos são a angelical. Os bonobos fazem amor, não a guerra.”

Para esmiuçar como estes nossos parentes lidam com as suas emoções e as dos outros, aspecto também importante para a história evolutiva humana, a equipa de Frans de Waal analisou gravações de vídeo da vida diária no santuário referido, que acolhe muitos bonobos órfãos, devido ao comércio ilegal de animais selvagens, embora alguns tenham já nascido lá e sejam criados pelas mães.

Nas crianças, tem havido muitos estudos sobre o desenvolvimento das suas competências sociais e emocionais: é no primeiro ano que começam a reconfortar outra criança através de contacto físico, abraços ou beijos. “As competências sócio-emocionais incluem capacidades como criar e manter relações sociais com sucesso, comportar-se de forma apropriada em situações sociais, ser sensível às emoções dos outros e gerir de forma eficiente as suas próprias emoções”, escreve a equipa. “A regulação emocional é parte essencial das competências sócio-emocionais e é definida como o processo de modificação, inibição, avaliação e monitorização dos estados internos e das reacções, que permitem responder de forma adaptada a situações de tensão”, diz ainda a equipa, acrescentando: “Estudos sobre o desenvolvimento das crianças mostram que uma gestão eficaz das suas próprias emoções permite grande empatia com os outros, incluindo as respostas de carinho.”

Mais: os estudos em crianças relacionam as suas competências sociais com ligações estáveis que estabeleceram, ou não, com os pais. “Crianças socialmente competentes mantêm os “altos” e baixos” das suas emoções dentro de limites. Uma ligação estável entre pais e filhos é essencial para isso, e é por essa razão que é comum órfãos humanos terem dificuldade em gerir as emoções”, explica uma nota da Universidade de Emory.

É aqui que entra o novo trabalho, evidenciando semelhanças entre o desenvolvimento emocional dos bonobos e das crianças. Primeiro, os cientistas observaram que os bonobos que recuperam mais facilmente das agitações emocionais (por exemplo, quando perdem uma luta) também sentem mais empatia por outros bonobos em situações de tensão, reconfortando-os com o toque, abraços ou beijos. Segundo: “Em comparação com os seus pares criados pelas próprias mães, os órfãos têm mais dificuldade em lidar com a tensão emocional”, frisa Clay. “Ficam aborrecidos e gritam vários minutos após uma luta, enquanto os jovens criados pela mãe acabam com isso em segundos.” Para Frans de Waal, estes resultados confirmam como a boa gestão das emoções é “parte essencial da empatia” e esta capacidade de se pôr no lugar do outro tem efeitos positivos: “A empatia permite aos grandes símios e humanos absorver a ansiedade dos outros sem ficarem eles próprios muito ansiosos.”

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