Aumentam apreensões de animais exóticos

biodiversidadeSol

Por Sónia Balasteiro

Portugal é a porta de entrada do comércio ilegal de espécies selvagens na Europa. Um tráfico que é o terceiro maior do mundo, a seguir ao de pessoas e ao da droga, movimentando já 12 mil milhões de euros ao ano – 120 vezes o que vale Cristiano Ronaldo no mercado.

Só em 2012, as autoridades portuguesas apreenderam, entre aves, répteis, mamíferos e peixes, animais exóticos que no mercado paralelo atingiriam um valor global de 750 mil euros. Aliás, segundo dados do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR, esse foi o ano em que as apreensões dispararam no país, passando das 44 infracções detectadas em 2011 para mais do triplo: no ano passado, o SEPNA registou 163 situações ilegais, apreendendo 421 animais. Já este ano, as autoridades apreenderam 315 espécimes selvagens inscritos na lista da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES).

“E esta é apenas a ponta do icebergue. Sabemos que há muito mais contrabando do que detectamos”, diz João Loureiro, do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). “Só apanhamos os traficantes porque os detectamos no aeroportos, através de denúncias, ou porque há sinalizações e investigações” – explica o coordenador da Divisão de Gestão de Espécies da Fauna e da Flora, entidade responsável pela aplicação da CITES no país. Isto, acrescenta, num contexto em que Portugal é o país da Europa que mais redes de traficantes desmantelou nos últimos anos: quatro, desde 2008.

As aves exóticas raras, como papagaios e araras, são de longe as principais vítimas do apetite dos traficantes, que as enviam do Brasil para Portugal, por avião, através de ‘correios’ humanos. “Até ao início da década, traziam os pássaros vivos, mas como a mortalidade era de 95%, passaram a trazer ovos dentro de collants de senhora, presos à cintura”, conta Loureiro. O corpo humano tem a temperatura ideal para incubar os ovos.

Época do tráfico a começar

E foi assim na última grande apreensão na alfândega do aeroporto de Lisboa, realizada com o apoio das equipas de segurança, em Maio – completamente fora da época alta do tráfico (que começa em Outubro, correspondendo à época de nidificação das aves no Brasil, até Janeiro).

O ‘correio’, um português, trazia à cintura 61 ovos de uma espécie de psitacídeo (araras e papagaios) inscrita na CITES e pouco vulgar no comércio ilegal, o papagaio de cauda curta. “Valem entre três e quatro mil euros o casal”, explica João Loureiro, referindo que “estes papagaios não são especialmente vistosos, mas são muito fáceis de reproduzir, o que já compensa aos traficantes”.

Quando as redes têm sucesso, os bichos seguem para as mãos de coleccionadores europeus dispostos a pagar o que for pedido. Para se ter uma ideia, só no caso dos psitacídeos mais raros (e inscritos na CITES como espécies ameaçadas), os valores oscilam geralmente entre 7.500 euros o casal e 15 mil euros por cada exemplar.

Mas uma arara azul – espécie prioritária de conservação que desapareceu da vida selvagem e que protagonizou em 2010 o filme animado Rio, da Pixar, que alertava precisamente para o problema do tráfico –, pode valer 90 mil euros. Um sheik do Qatar pagou bem mais, para evitar o desaparecimento da espécie no Brasil: contactou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis e ofereceu-se para criar um centro de recuperação da espécie. E teve de comprar as aves detidas por coleccionadores privados, pagando meio milhão de euros por cada.

Enguias muito valiosas

As espécies que passam por Portugal não atingem valores tão elevados, mas chegam às dezenas de milhar de euros. Na semana passada, a Polícia Judiciária, em articulação com o ICNF, apreendeu oito aves exóticas de diferentes espécies que valem 22 mil euros.

E as aves não são os únicos animais exóticos a passar por Portugal. Segundo João Loureiro, também é frequente o tráfico de enguia de vidro, conhecida como meixão, uma espécie que perdeu 70% da sua população e que tem como destino países orientais como o Japão e a China – para consumo próprio, no primeiro caso, e no segundo para engordar e revender na Europa. “Um quilo de meixão é pago a dois mil euros”, refere João Loureiro. A ameaça de extinção implica que, em Portugal, onde a espécie é endémica, é proibida a pesca ou comercializção, excepto no Rio Minho. A justificação das autoridades é que a pesca deste peixe é permitida em Espanha e, sendo o Minho um rio internacional, não faz sentido adoptar medidas diferentes. Mas o problema do tráfico tornou-se de tal modo grave que a União Europeia criou uma task force para recuperar a espécie.

Caviar, e répteis, como a piton real, a jibóia constritora ou a tartaruga da Flórida, e mamíferos como o macaco verde são outros animais vivos encontrados pelas autoridades. Mas cada apreensão implica um problema para o Estado: o que fazer aos animais? Até agora, os jardins zoológicos têm-nos recebido – os papagaios de cauda curta apreendidos em Maio, por exemplo, estão num destes espaços –, mas nem sempre têm capacidade ou interesse para o fazer. “E no caso dos papagaios estamos a falar de 57 que sobreviveram e que têm de ser alimentados à mão, de duas em duas horas”, explica João Loureiro. O ideal, acrescenta, seria devolver os espécimes apreendidos aos países de origem, neste caso o Brasil. “Estamos em conversações para resolver os obstáculos que se têm levantado, sobretudo de custos e sanitários”, acrescenta.

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