‘Nunca vi animais tão apáticos’, diz Luisa Mell sobre beagles resgatados

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Por Daniel Favero

Uma das primeiras ativistas a serem identificadas pela Polícia Civil na invasão ao Instituto Royal, em São Roque (SP), a apresentadora de TV Luisa Mell diz ter experimentado o “pior momento” de sua vida nas horas anteriores ao resgate dos cães da raça beagle, diante de rumores de que os animais seriam sacrificados. Após levar uma fêmea para casa, a apresentadora afirma que os cães utilizados em pesquisas no instituto apresentam diversos distúrbios de personalidade.

“O que mais me choca é a maldade humana. É horrível ver a apatia desses animais. Sou uma pessoa que resgata animais toda a semana, tenho experiência nisso, e nunca tinha visto animais tão apáticos”, dispara a apresentadora, cuja carreira é voltada para a defesa dos direitos dos animais.

“A gente se aproximava deles e eles se encolhiam, quando viam luz forte entravam em pânico. Eles têm uma lágrima amarela saindo dos olhos, um cheiro que não sei como explicar, centenas de furos perto dos focinhos, uma sensibilidade muito grande perto dos olhos. Eles têm medo que os peguem no colo, têm pânico das pessoas. Quando são pegos, ficam imóveis, como cobaias”, relata Luisa. Segundo a apresentadora, nem sua veterinária sabe a que tipo de procedimento a cadela que ficou com ela foi submetida. “Ela tem uma cicatriz, como se tivessem tirado um órgão dela.”

A apresentadora diz que já tinha conhecimento de denúncias de maus-tratos a animais do instituto há mais de um ano, quando foi aberta uma investigação do Ministério Público. Há cerca de duas semanas, ativistas que haviam se acorrentado em frente à sede do centro de pesquisas procuraram Luisa, pedindo seu apoio.

Naquela semana, o prefeito de São Roque, Daniel de Oliveira, convocou uma reunião entre ativistas e membros do Instituto Royal, mas os representantes da entidade não teriam comparecido, na versão da apresentadora. “Eles disseram que nunca foram procurados para conversar, mas isso é mentira. Ele se negaram a sentar com a gente e o prefeito, saíram escondidos”, acusa Luisa.

Momentos de tensão

Na semana seguinte, Luisa diz que foi procurada novamente pelos ativistas, após rumores de que os animais seriam retirados do Instituto Royal. Ela voltou para a cidade com seu grupo Emergência Animal, e convocou apoio de voluntários pelo Facebook. Ela diz que tentou negociar durante toda a noite de 17 de outubro, sugerindo a criação de uma comissão “para entrar (no local), fazer uma análise e acalmar a população”. “Mas não tinha ninguém com quem conversar, nem delegado, nem Ministério Público, foi uma omissão total do poder público”, reclama a apresentadora.

Nesse meio tempo, ainda segundo Luisa Mell, correu entre os ativistas o boato de que os cães seriam retirados do local ou que seriam sacrificados naquela noite. “Foi quando começamos a escutar os gritos desesperados lá dentro, gritos e choros. Foi o pior momento da minha vida, de ver aquilo e de não poder fazer absolutamente nada”, relembra. “Daí divulguei no meu Facebook e muita gente começou a aparecer por lá”, conta.

A apresentadora, no entanto, diz que não presenciou a invasão ao Instituto Royal. Luisa conta que, naquele momento, ela tentava registrar uma ocorrência na delegacia do município, o que, segundo a apresentadora, não foi possível porque “o delegado não estava”. Ao voltar à sede do centro de pesquisas, Luisa se deparou com os ativistas e policiais militares. A apresentadora diz ter acreditado que a Polícia Militar estava no local para ajudar no resgate aos animais.

“Quando eu voltei para o local, a polícia estava junto. As pessoas entravam e saíam, passeando. Mas quando viram os maus-tratos, começaram a abrir os canis, e a polícia estava junto. E foi isso que eu entendi, que a polícia estava lá por causa dos maus-tratos. Eu só não voltei na delegacia para fazer um boletim de ocorrência por maus-tratos porque não tinha delegado na delegacia”, diz Luisa, que questiona as ameaças de que os ativistas sejam indiciados por furto. “Se fosse em um supermercado e as pessoas tivessem entrado e pegado as coisas com o policial ao lado, ele não teria evitado o crime? Mas eles estavam junto, tem alguma coisa de errado nisso”, completa.

Uso de dinheiro público

Prometendo seguir pressionando as autoridades por uma investigação no Instituto Royal, Luisa Mell afirma que a briga ainda não acabou. Ela acusa a entidade de usar dinheiro público para realizar pesquisas e vendê-las a empresas privadas, e não poupa de críticas nem mesmo o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), órgão do governo federal responsável pela fiscalização de pesquisas animais.

“Por que eles não querem divulgar a lista de clientes? Se eles estão trabalhando na cura do câncer, que estudos são esses?”, indaga Luisa, que critica a tentativa de criminalizar o movimento. “Querem fazer parecer que são uma meia dúzia de malucos, mas não é, é uma sociedade que se deu conta do que estava sendo feito”, diz a apresentadora.

Luisa acusa o coordenador do Concea, Marcelo Morales, de advogar em favor do Instituto Royal. “Eles (Royal) recebem dinheiro público, o que é questionável, porque desenvolvem e vendem para clientes, e essa lista é confidencial – o que é totalmente questionável -, eles se negam a mostrar. O Marcelo, do Concea, admitiu um crime, porque diz que se abolíssemos animais, teríamos que importar tecnologia, e a lei é clara: se existem testes alternativos, usar animais é crime. Ele é pago com dinheiro público e atua como representante da Royal, é um absurdo, eles estão tentando fazer uma confusão na cabeça das pessoas”, acusa a apresentadora.

Outro lado

Em nota, a Polícia Militar de São Paulo afirma que os policiais que faziam a segurança do Instituto Royal não agiram para evitar a invasão porque optaram “por evitar colocar em risco a integridade física das pessoas”. A PM afirma que tentou negociar para que os ativistas que protestavam em frente ao Royal fossem recebidos por representantes do instituto durante a o dia 18 de outubro.

De acordo com a PM, o “número de pessoas que chegavam ao local aumentava expressivamente, passando rapidamente a cerca de 70 integrantes” e, às 2h, “alguns ativistas, num ponto inacessível às viaturas, transpuseram cercas, invadiram o instituto e abriram a entrada principal para os demais”. Constada a invasão, a PM afirma que não houve ação policial para “evitar colocar em risco a integridade física das pessoas, entre as quais muitas mulheres, e dos animais, num confronto direto, que tornaria o resultado do evento ainda mais grave”.

O Terra entrou em contato com a assessoria do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), pasta responsável pelo Concea, mas até as 15h não havia recebido um posicionamento do órgão a respeito do assunto.

Ativistas retiram animais de instituto

​Ativistas invadiram, por volta das 2h de 18 de outubro de 2013, a sede do Instituto Royal, em São Roque, no interior de São Paulo, para o resgate de cães da raça beagle que seriam usados em pesquisas científicas. Mais tarde, coelhos também foram retirados do local. Cerca de 150 pessoas participaram da invasão. Ao todo, 178 cães foram retirados do instituto. O centro de pesquisas era alvo de frequentes protestos de organizações pelos direitos dos animais.

Os beagles são usados por ter menos variações genéticas, o que torna os resultados dos testes mais exatos. Apesar de os ativistas relatarem diversas irregularidades, perícia feita no Instituto Royal não constatou indícios de maus-tratos aos animais. No dia seguinte à invasão, um novo protesto terminou em confronto entre policiais militares e manifestantes e provocou a interdição da rodovia Raposo Tavares. Quatro pessoas foram detidas.

Em nota, o Instituto Royal refutou as alegações dos manifestantes. “O instituto não maltrata e nunca maltratou animais, razão pela qual nega veementemente as infundadas e levianas acusações de maltrato a seus cães. Sobre esse ponto, o instituto lamenta que alguns de seus cães, furtados na madrugada da última sexta-feira, estejam sendo abandonados”, diz a nota, acrescentando que todas as atividades desenvolvidas no local são acompanhadas por órgãos de fiscalização.

Segundo o instituto, a invasão de sua sede constituiu um “ato de grave violência, com sérios prejuízos para a sociedade brasileira, pois dificulta o desenvolvimento de pesquisa científica no ramo da saúde”. A invasão ao local, de acordo com a posição do Royal, provocou a perda de pesquisas e de um patrimônio genético que levou mais de dez anos para ser reunido. O instituto também informou que os animais levados durante a invasão, quando recuperados, serão recolhidos e receberão o tratamento veterinário adequado, podendo ser colocados para adoção.

Marcelo Morales, coordenador do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) – órgão responsável pela fiscalização do setor -, afirmou que nenhum animal retirado do laboratório sofria maus-tratos ou tinha mutilações. De acordo com o médico, o instituto era acompanhado pelo Concea, ligado aos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e da Saúde, nos testes para medicamentos coadjuvantes na cura do câncer, além de antibióticos e fitoterápicos da flora brasileira, feitos a partir de moléculas descobertas por brasileiros. “Milhões de reais foram jogados no lixo e anos de pesquisas para o benefício dos brasileiros e dos animais também foram perdidos”, disse o pesquisador.

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