Os erros da História, a Crise e a Desonestidade Intelectual

vida animalVida Animal

Por Andreia Faria

É sabido que os tempos de crise deixam ainda mais desprotegidos aqueles que já o são. Acontece com os idosos, com os desempregados e com os animais. No entanto, se é consensual que em época de carência a sociedade deve valer aos mais desprotegidos dos seus membros, quem se preocupa com os animais não humanos é muitas vezes acusado de “falhar o alvo”, de centrar-se em assuntos supérfluos quando há ainda tantos problemas “humanos” a resolver.

Não sei se é possível demonstrar a quem me lê que assuntos humanos e não humanos são uma e a mesma coisa. Haverá sempre a barreira da (in)sensibilidade individual a impedir a compreensão de algo tão elementar, tão intuitivo, como não ser possível que um grupo de indivíduos viva pacífica e harmoniosamente se assenta o seu modo de vida no abuso de outros indivíduos. É aliás minha convicção que o momento em que nos permitimos desconsiderar moralmente os animais é o momento em que começamos a desconsiderar moralmente as pessoas humanas e, em última análise, em que nos desconsideramos a nós próprios – uma espécie de karma.

Mas talvez consiga aqui deixar algumas pistas para reflexão. Há pouco mais de um mês um relatório da Amnistia Internacional (AI) denunciou o tratamento dado no Qatar aos operários, na sua maioria imigrantes, que trabalham na construção das infra-estruturas do Mundial de Futebol de 2022 (http://www.publico.pt/mundo/noticia/relatorio-da-amnistia-imigrantes-que-constroem-estruturas-para-o-mundial-de-futebol-do-qatar-sao-tratados-como-gado-1612931). Nesse documento, a AI diz muito claramente que os trabalhadores no Qatar são tratados «como escravos», «como gado», «como animais». Os termos de comparação não são acidentais: na nossa sociedade os animais são de facto tratados como escravos, como… animais. A metáfora está de tal modo normalizada que todos sabemos o que significa ser tratado como um animal: significa ser abusado, forçado a trabalhos duros e a privações, usado como instrumento às mãos de outrem. Que humanos sejam tratados como animais choca-nos. Mas talvez seja altura de estranhar as bases da comparação, ou seja, de não permitir que os animais sejam tratados «como animais». Arriscaria mesmo afirmar que é porque tratamos mal os animais que tratamos mal outros humanos. Que não é possível causar malefícios a um grupo de seres vivos e respeitar ao mesmo tempo outro grupo, mesmo que esse grupo seja aquele a que pertencemos. Em último caso, sabemos (basta auscultar pensadores como Jacques Derrida ou Giorgo Agamben) que a barreira entre animais humanos e não humanos é uma barreira artificial e sempre em mutação, e a prova disso é que houve momentos em que a História, a Filosofia e a Ciência duvidaram da plena humanidade das mulheres e dos negros, colocando-os algures entre o homem e o animal.

Não se trata aqui de relativizar diferenças entre espécies, mas sim de questionar que a diferença seja usada como pressuposto da inferioridade daqueles a quem a atribuímos. E de aprender com os erros cometidos no passado.
É nesse sentido que valeria a pena ler o livro Bonzo’s War: Animals Under Fire 1939 -1945 (Constable, 2013), da jornalista Clare Campbell. Ao investigar as condições de vida dos animais de estimação no Reino Unido durante os anos da II Guerra Mundial, Campbell revela aquilo que os britânicos querem esquecer, aquilo de que agora se envergonham: que sob a ameaça da guerra e da fome os animais domésticos foram as primeiras bocas a ser sacrificadas, com o extermínio “preventivo”, em apenas uma semana do ano de 1939, de 750 mil cães e gatos.
A investigação de Campbell, só por si, serviria de resposta ao artigo de opinião de Pedro Bidarra publicado há alguns dias no Dinheiro Vivo (http://www.dinheirovivo.pt/Buzz/Artigo/CIECO301211.html?page=2).

O artigo, não há outra forma de dizê-lo, é pleno de ignorância e de desonestidade. Na sua coluna semanal, o autor badala a tal ideia de que, em tempos de crise, cuidar dos animais é um luxo. Os animais têm assim, segundo Bidarra, um valor relativo. Pode-se cuidar deles como cuidamos de algum pequeno prazer ou nos dedicamos a um passatempo em tempos de prosperidade, mas em tempos difíceis os animais passam a ser artigos supérfluos e é preciso livrarmo-nos deles como de um hobby caro.
Pedro Bidarra vai mesmo mais longe e considera uma «imbecilidade» que a lei proteja os animais e puna os crimes sobre eles perpetrados. Efabula ainda sobre a existência de um «lobby do tofu», que seria obra de gente anémica, de tom «branco acizentado» e sem pulso forte. Já ele próprio, autor do artigo, é um exemplo de virilidade porque come bifes. Esta equação arcaica entre masculinidade, um apetite primitivo por carne e insensibilidade ao bem-estar dos outros faz-me sentir vergonha alheia por Pedro Bidarra. A sua pretensão de arrojo e desalinho de pensamento, enfant terrible e muito macho entre os efeminados vegetarianos e defensores dos animais, é simplesmente ridícula, porque procura validar com recurso à piadola (já que não à honestidade intelectual) tudo aquilo que de pior se encontra instituído contra os animais e contra o ideal de uma sociedade solidária. A fazer lembrar os erros do passado.

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