Um matador de touros está sempre “no fio da navalha”

toureiroPúblico

Por Maria João Lopes

Pedro Noronha levanta os quadris, põe uma expressão de desafio no rosto. Altivo, interage com o colega que está com a tourinha, objecto com uma roda e uns cornos que faz de touro. Tem 18 anos, começou a treinar para ser matador de touros profissional aos 13. Como em Portugal, a regra é a proibição da morte de touros em público, foi fazê-lo a Málaga, Espanha. Tinha 16 anos. Não sente pena do bicho e, quanto a medo, diz que quem está neste mundo, tem de superá-lo. “Penso que na praça o touro tem uma morte digna”, alega.

É apenas um dos alunos de Vítor Mendes, na Escola de Toureio José Falcão, em Vila Franca de Xira. Com 56 anos, o professor admite que levam “cornadas”, empurrões, mas que isso faz parte. Argumenta que aprender pára-quedismo também é perigoso e que, no futebol, os desportistas sofrem lesões. “Já levei 19 cornadas e nunca morri por causa disso, mas estive quase a morrer num acidente de avião”, conta. Mas admite que um matador de touros está sempre “no fio da navalha” e por isso há “horas e horas de treino”. “Os miúdos são ensinados a defenderem-se, a saber cair”.

A polémica voltou a estalar este mês com uma recomendação do Comité dos Direitos das Crianças das Nações Unidas para que Portugal aumente a idade mínima para participar em actividades tauromáquicas. No documento, o comité diz-se “preocupado com o bem-estar físico e mental das crianças” envolvidas em treinos e espectáculos ligados à tauromaquia, assim como com o “bem- estar mental e emocional” daquelas que, enquanto espectadoras, “estão expostas à violência das touradas”. Os peritos, tendo em vista a eventual proibição da participação de crianças em touradas, exortam o Estado português a tomar as medidas legislativas e administrativas necessárias, a fim de proteger as crianças envolvidas em treinos e espectáculos e enquanto espectadores. Tal pode incluir, sugerem, o aumento da idade de 12 anos para a formação, em escolas de toureio e quintas privadas, para a participação em touradas, e o aumento da idade de seis para assistir a espectáculos. O comité também exorta o Estado a tomar medidas de sensibilização sobre a “violência física e mental” associada às touradas e sobre o impacto que tem nas crianças.

Governo reclassifica idade
O documento da ONU data de 31 de Janeiro. Antes, a 5 de Dezembro, foi aprovado em Conselho de Ministros um decreto de lei que aumenta de seis para 12 a classificação dos espectáculos tauromáquicos. O decreto foi publicado a 14 de Fevereiro e entra em vigor a 15 de Abril. Esta classificação é, no entanto, um aconselhamento. Os pais ou outros adultos que acompanhem os menores podem responsabilizar-se pelas crianças.

Quanto à actuação dos menores, as regras mantêm-se: 12 anos. “O menor só pode participar em espectáculos que envolvam animais desde que tenha pelo menos 12 anos e a sua actividade, incluindo os respectivos ensaios, decorra sob a vigilância de um dos progenitores, representante legal ou irmão maior”. Já para o ingresso nas escolas de toureio não existe idade mínima. Quanto “a touradas ou qualquer espectáculo, com touros de morte, bem como o acto de provocar a morte do touro na arena”, a lei proíbe-os, “salvo os casos excepcionais” – como Barrancos.

Na Escola de Toureio José Falcão, os alunos estão com capotes, bandarilhas e tourinhas nas mãos: quadris espetados, olhar penetrante, passos cuidados. “Sempre gostei do mundo dos toiros. É difícil explicar. Nasce com a pessoa”, diz Pedro Noronha, acrescentando que ir a Espanha é “o sonho de qualquer” um e que matar o touro “faz parte da tradição”. “O touro de lide existe exactamente para isso”.

João Martins, 19 anos, começou a treinar aos 15. “A minha família sempre criou cavalos, cresci no meio dos touros”, conta. A primeira vez que toureou em público foi em Portugal, tinha 16 anos, mas aí simulou a morte com bandarilha. No ano passado, com 18, foi a Espanha e matou um touro pela primeira vez. À segunda, também no país vizinho, correu tão bem que o público pediu para se cortarem as orelhas ao animal: “É tradição lá, é como se fossem os troféus”, conta, precisando que não é ele quem corta.

Actualmente esta escola tem 16 alunos, são raras as raparigas que aparecem. Segundo Vítor Mendes, regra geral, ali os alunos não têm menos de 8 anos e, antes de enfrentarem um touro, têm de aprender o toureio de salão, que implica conhecer os gestos, a coreografia e praticar no campo, com animais mais pequenos, em propriedades no Ribatejo e no Alentejo.

Sociedade “doente”
Os treinos no campo são primeiro com bezerros e depois com novilhos: “Quando agarramos num miúdo de 14 ou 15 anos que vai tourear uma bezerra ou que vai tourear um bezerro, são animais cujo comportamento é também mais infantil”, justifica, explicando que as actividades, de formação ou de espectáculo, que existem para miúdos de 13 ou 14 anos são “bezerradas”, com “bezerros de 150 ou 200 quilos”.

“Uma tourada é um espectáculo oficial em que há um toiro com quatro ou cinco anos com 500 e tal quilos e quem vai estar na cara desses animais são profissionais de alto nível”, diz, precisando que regra geral já terão cerca de 18 anos. A formação nestas escolas exige disciplina mental, controlo do corpo pela mente, autodomínio, “método, regras, carácter, ambição, querer, e triunfo”. “O tourear é na realidade um acto de inteligência”, defende.

Para este professor, a sociedade é hoje “essencialmente urbana” e “está doente”, o que faz com que muitas pessoas, “dentro da sua solidão”, transmitam aos animais “reacções e comportamentos que têm a ver mais” com “o factor racional ou com o ser humano”. Entende que “há pessoas que se desequilibram de tal forma que transmitem” sentimentos, que considera próprios dos humanos, “para o gatinho, para o cãozinho, para o porquinho”. E, para este matador de touros, que já matou mais de três mil touros no México, na Colômbia, na Venezuela, no Peru, Espanha e França, “animais são animais” e “pessoas são pessoas”.

Vítor Mendes defende que “desde que Walt Disney pôs o gatinho a discutir com o ratinho e o patinho a falar e a transmitir comportamentos e reacções de índole mais humana” que passou a ser uma “coisa trágica” falar com uma “criança urbana” de sete anos sobre “sangue e violência”. “Não podemos fugir que existe o factor sofrimento, o factor sangue, o factor às vezes até agressividade”, argumenta, dizendo acreditar que “é utópico” encarar o mundo numa perspectiva de “beleza pura e total e que tudo é uma paz”.

Tauromaquia prejudica crianças

Psicólogas entendem que actividades tauromáquicas prejudicam crianças

Integrar actividades tauromáquicas na infância e adolescência pode levar as crianças a apreender a noção de que “a violência é uma ferramenta para lidar com a vida” e torná-las mais insensíveis ao sofrimento, o que é “mais preocupante” quando esse sofrimento é da “responsabilidade” delas. A opinião é da psicóloga e docente da Universidade de Lisboa, Margarida Gaspar de Matos, para quem estas actividades encerram, em si mesmas, “violência” e implicam “risco para a vida e para a saúde de todos os envolvidos”.

Outro aspecto focado por Margarida Gaspar de Matos é o “medo” que as actividades podem provocar nos mais pequenos. Se sentirem “muito medo” e persistirem nas práticas, tal pode levar “precocemente a perturbações e rituais obsessivo-compulsivos, comuns em profissões de risco”.

A psicóloga admite que haja casos em que possam “criar boa auto-estima e coragem”. “Mas à custa de quê?”, questiona, frisando que, “segundo os novos conhecimentos de neurociências, em sentido estrito, só depois dos 24 anos”, é que se está “menos em risco” ao participar nestas actividades. “No mínimo, penso ser de bom senso não formatar as crianças com estas experiências antes da saída da adolescência”, diz.

A psicóloga e docente do Instituto de Educação da Universidade do Minho, Ana Tomás de Almeida considera que “a bestialidade, que é uma marca simbólica deste espectáculo, não é recomendável para crianças”. Para a psicóloga, “os maiores prejuízos” serão “os morais”. “A exaltação da crueldade e o fascínio pelo maltrato aos animais no contexto de um espectáculo têm efeitos nefastos na formação social e moral da criança”, diz, explicando que “do ponto de vista emocional e cognitivo há um conjunto de distorções que se operam com a exposição à violência”.

O presidente da Comissão Nacional de Protecção das Crianças e Jovens em Risco (CNPCJR), Armando Leandro, vai debruçar-se sobre a participação de crianças em escolas de toureio, assistência e participação em espectáculos, “tendo em vista a legislação portuguesa e as recomendações” da ONU, considerando “exclusivamente o ponto de vista do interesse superior das crianças” e “sem qualquer juízo prévio”.

Já em 2009, num ofício que seguiu para as comissões de protecção de crianças e jovens e sem “qualquer juízo sobre a legitimidade dos espectáculos tauromáquicos”, a CNPCJR considerava que “os animais utilizáveis em espectáculos tauromáquicos, independentemente do seu peso” têm “características de ferocidade/agressividade, inerentes à natureza do espectáculo, que podem colocar em perigo crianças ou jovens, em função da desproporcionalidade entre aquelas características e as limitações do seu estado de desenvolvimento”.

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