Opinião: Uma poça de sangue no chão

tourada sangueRede Regional

Nenhuma voz, nenhum gesto, nem um silêncio se ergueu diante da morte na arena. Apenas uma poça de sangue no chão testemunha o massacre. Uma poça de sangue grita uma vida e ninguém parece ouvir. Houve quem aplaudisse de pé, houve quem risse e cantasse, houve quem aclamasse os heróis. E nem um olhar daquela arena repleta se desviou para enfrentar o grito que ecoa do sangue no chão. Uma poça de sangue no chão denuncia mais uma morte e o único destino que lhe reservam é a vassoura, para que a limpem, para que a apaguem. Nenhuma morte se apaga com uma varredela e nenhum grito se abafa pela mera vontade. Mesmo que limpem a poça de sangue no chão, a poça de sangue no chão continuará a testemunhar a morte de mais um touro. Mais um touro morreu sob o golpe dos aplausos e a desumanidade das farpas.

A nobreza de um touro não está na forma como é assassinado na arena, está no perfil negro que emerge dos campos dourados pelo Verão. É um animal imponente, possante, que me habituei a ver nos campos da Lezíria, “livre”. Ali é criado para que as ganadarias o sirvam como divertimento a uma multidão que se banqueteia com o derramamento de sangue e o fim da vida de um ser vivo. E a multidão ainda aplaude, a multidão ainda ovaciona o matador de pé, enquanto a poça de sangue ali fica, no chão, a dar testemunho de mais uma vida roubada ao mundo por mãos humanas. De mais uma morte absurda que será varrida e coberta pelo ocre do chão.

Simbolicamente, a tourada é a celebração de um sacrifício e da violência como condição da virilidade, da masculinidade e da força. É herdeira de um modelo civilizacional que ainda acredita que pode possuir tudo o que existe no planeta como se homens e mulheres fossem uma raça superior face às restantes formas de vida. Nenhuma vida é dona de outra vida, a vida não tem donos. Cada humano que habita a Terra tem o dever de zelar pelo bem-maior de todo o planeta em prol da continuidade da vida que o sustém. Essa é a nova lei! Promover uma prática que celebra o sofrimento, a tortura e a morte de animais é alinhar com um modelo de civilização obsoleto e condenado à extinção. A tourada é uma prática bárbara que viola o direito à vida em nome do entretenimento e os legisladores que a apoiam ou que simplesmente decidem nada fazer são cúmplices de uma das mais vis formas de matar animais e de bestificar pessoas. São esses os padrões que nos ancoram no passado e não nos permitem avançar. Há que aboli-los! Quero viver num mundo virado para o futuro, um mundo que promova práticas culturais que nos levem à reflexão e ao questionamento, à descoberta de novas linguagens e à criação de diálogos interculturais. Práticas que nos despertem para a verdadeira beleza e nos coloquem em comunhão com a vida, em vez de alimentarem lógicas que nos separam cada vez mais. É assim que a humanidade evolui e prospera, é assim que a humanidade vive em equilíbrio com o planeta.

Nunca assisti a uma tourada, recuso-me. A tourada não me representa enquanto ribatejano e enquanto português. A tourada não me representa enquanto ser humano. Envergonha-me.

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