O futuro de Carnaxide chega a galope: hipódromo gigante para apostas em cavalos

Fonte: Flickr/Moyan Brenn

Fonte: Flickr/Moyan Brenn

Observador

Nota da Redação: Agora sabemos porque este governo legalizou as apostas em corridas de cavalos: para permitir que um atentado contra os animais e o ambiente pudesse ver a luz do dia em Oeiras. Tudo com o aval de uma autarquia formada pelos seguidores de Isaltino Morais, o ex-Presidente da Câmara que esteve preso por fraude fiscal e branqueamento de capitais. O pior do país está aqui à vista.

Uma serra repleta de equídeos. É este o sonho de Joaquim Ventura, um engenheiro e empresário que está a promover a construção de um mega-empreendimento na serra de Carnaxide, no concelho de Oeiras, em que os cavalos, os burros e os póneis serão as estrelas principais. O projeto já teve aval municipal e Joaquim aponta o início das obras ainda para este semestre, enquanto se desdobra em contactos com potenciais interessados no investimento.

Apesar de, na totalidade, o projeto prever cerca de 150 hectares de construção, para já só estão aprovados 20. E, para esses, o plano é ambicioso:

  • Um hotel de quatro estrelas com duzentas camas
  • Uma unidade de 48 apartamentos assistidos
  • Uma clínica de saúde e bem-estar
  • Um silo automóvel com 600 lugares
  • Uma galeria comercial
  • Um centro hípico
  • Um hospital de medicina física e de reabilitação
  • Um lar de idosos/hospital residencial
  • Edifícios para serviços administrativos e escritórios

Tudo isto, mas não só, será a Villa Cavallia. “A ideia é ser um projeto que seja dos zero aos cento e tal anos”, diz um entusiasmado Joaquim Ventura ao Observador, explicando que a temática hípica estará presente em todas as valências do empreendimento, que aproveita a boleia da nova lei das apostas em corridas de cavalos para se implementar. É por isso que, além de hipoterapia e de decoração cavalar, a segunda fase do projeto traz consigo um hipódromo onde será possível fazer apostas. Neste momento, a Câmara Municipal de Oeiras ainda não autorizou a criação deste equipamento, mas Joaquim prevê que tal esteja para breve e diz que ainda antes do fim do ano já vai haver corridas em Carnaxide.

A cavalo da nova lei

A ideia de criar um empreendimento com a temática do cavalo ganhou força nos últimos meses, ao mesmo tempo que o Governo trabalhava na legislação que vem regular o setor das apostas hípicas. Essa lei já está pronta, foi aprovada em Conselho de Ministros no fim de fevereiro e Cavaco Silva já a promulgou: entra em vigor em junho.

Enquanto a lei não se torna eficaz, Joaquim Ventura vai tentando convencer outros a entrarem na Villa Cavallia. Para o hotel, garante, já há um grupo “com hotéis na Madeira e em Espanha” interessado em investir. Para o resto, tudo se fará pouco a pouco. “Ou as pessoas compram o terreno e mandam fazer [o projeto], ou nós fazemos e damos a exploração dos espaços”, explica, confiante de que a “localização estupenda” da serra vai levar muitas pessoas a investir no local.

Uma serra disputada por animais

Situada a menos de cinco quilómetros de Lisboa, a zona conhecida como serra de Carnaxide não é realmente uma serra, mas destaca-se das redondezas pela altitude que tem e pelas vistas desafogadas, que vão desde a Ponte 25 de Abril e Cristo Rei até Caxias, a sul, e da Amadora até à serra de Sintra, a norte. Apesar disso, e de grandes zonas da serra estarem já urbanizadas à espera de inúmeros projetos – alguns deles, polémicos – continua a ser um dos poucos locais dos municípios de Oeiras e da Amadora que ainda não foram ocupados por edificação intensiva.

Na reunião de câmara onde foi discutida a aprovação da Villa Cavallia, em maio de 2014, a votação redundou num empate entre os eleitos do movimento Isaltino Oeiras Mais à Frente (IOMAF) e os vereadores da oposição. Foi o voto de qualidade de Paulo Vistas, presidente do município, que acabou por dar luz verde ao projeto.

“Tenho sérias dúvidas que, com mais não sei quantos carros, as coisas não se tornem mais complicadas”, argumenta Alexandra Moura, vereadora do PS, preocupada com a mobilidade da zona, que diz já ser complicada. Na altura, a socialista disse que “aquilo que gostaria mais de ver para a serra de Carnaxide (…) era que houvesse um espaço mais de lazer”, pelo que o PS defende a alteração dos planos de ordenamento do território para a zona. Os atuais planos preveem que se possa construir em quase toda a serra, onde existem diversos troços de aqueduto subterrâneo que ligam ao Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa, e que a câmara admite não conseguir preservar.

“Para manter a serra tal como ela estava, o município teria de ter recursos financeiros para adquirir, ou para expropriar, para ficar com a serra e mantê-la ou, eventualmente, dar-lhe um caráter mais naturalizado”, lê-se na ata da reunião, numa citação atribuída a Paulo Vistas, que admitiu que era essa a solução que preferia.

Já o vereador da CDU, Daniel Branco, que também votou contra, defende que “a serra de Carnaxide deve ficar como uma zona de equilíbrio ambiental”, admitindo no entanto que os trabalhos de urbanização já feitos impedem que a área seja totalmente verde. Falando ao Observador, o eleito comunista lembra que, para a serra, embora para outra zona, chegou a ser apresentado um projeto para a criação de uma aldeia de macacos. “Uma história mirabolante, surpreendeu-me muito”, diz. “É só animais, despachámos os macacos e agora apareceu a Villa Cavallia”.

Esse projeto com macacos, levado a uma reunião de câmara menos de dois meses antes da discussão sobre os cavalos, era apadrinhado pela Associação de Jardins-Escolas São João de Deus e previa a criação de um parque pedagógico onde diversas espécies de macacos iriam “viver livremente em espaços amplos, em ambiente natural” para gáudio dos visitantes que poderiam “circular em torno de dez recintos rodeados de água, formando cascatas e diques”. A proposta foi rejeitada.

One thought on “O futuro de Carnaxide chega a galope: hipódromo gigante para apostas em cavalos

  1. Tendo em conta que o Cavalo é um animal extremamente inteligente, delicado, sensível, quase, quase humano, explorá-lo deste modo ignóbil e cruel é um autêntico biocídio.

    A introdução deste costume bárbaro em Portugal é regressar a um tempo onde a ignorância sobre o que é um animal era abismal. E, pelos vistos, ainda é.

    Tudo isto faz parte de um retrocesso que está em curso no nosso pobre País, e que em breve o transformará no mais estúpido país para viver.
    Temos de começar uma nova luta.
    Os Cavalos não nasceram para divertir idiotas.

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