Tauromaquia nos videojogos: sim ou não?

anti touradaObservador

Muitos já devem ter conhecimento do caso “Hatred”, um jogo classificado como “controverso” devido ao seu conteúdo extremamente violento e que é considerado por alguns, de violência gratuita. “Hatred” foi retirado temporariamente do Steam Greenlight pelo seu teor violento, e voltou a ingressar o serviço acompanhado de um pedido de desculpa do próprio Gabe Newell, o patrão da empresa Valve (onde Varoufakis foi consultor económico).

As razões de Newell para a reposição de um jogo controverso assemelham-se às afirmações da Microsoft para defender a existência do jogo “Toro”, um simulador que nos coloca na pele de um toureiro em várias praças do mundo, com o intuito de provocar o touro com o abanar da capa vermelha e para espetar-lhe bandarilhas no lombo. “Toro” gerou uma grande polémica em Espanha que reuniu 65.000 assinaturas e que continuam a somar numa petição do Change.org, para pedir à Microsoft que cancele a publicação do jogo em questão por “contribuir para a prolongação da barbárie e do mau-trato animal”.

Em janeiro de 2015, a Microsoft veio responder a esta petição por comunicado, e bem:

“(…) À semelhança do que acontece na televisão e no cinema, os desenvolvedores devem ter liberdade para criar uma variedade de jogos e experiências de entretenimento tão ampla quanto a necessidade dos consumidores, e estes, por sua vez, devem ser livres para escolher o que comprar e jogar (…)”. A Microsoft acrescentou ainda, para defender a existência do jogo, que: “(…) Toro não é um jogo em nada violento, nem sequer mostra uma gota de sangue. É um jogo Arcade que pretende ser divertido, sem promover o mau-trato animal, mas que procura entreter a quem eleja livremente comprá-lo (…)”.

Portanto, espetar umas bandarilhas no lombo do touro é uma forma de entretenimento como um simulador qualquer de pesca, que permite por sua vez perfurar o anzol no céu-da-boca de uma faneca para grelhar no jantar.

Face ao número crescente de assinantes desde janeiro, a Microsoft poderia reformular a questão: Se é um jogo que ainda ninguém viu e que acabou por ser classificado como “Teen”, porque continuam a assinar esta petição com a exigência de um cancelamento? Leia-se que “Toro” é multiplataforma e vai estar disponível para PC, Xbox One e PS4.

A resposta poderá, ou não, ser simples. Não é por tendências assassinas ou sociopatas, não é por conteúdo sexual implícito ou explícito, não é pelo vermelho de sangue. O mercado dos Videojogos permitiu que “GTA” e “Manhunt” existissem, porque há um direito primário de existir e porque os criativos são livres de criar. Tal como todo o ser humano é livre de se expressar. E é por esse livre direito que Gabe Newell não censurou “Hatred” e a Microsoft nunca irá censurar “Toro”.

“Naughty Bear” por exemplo, foi classificado para poder ser jogado por crianças. O protagonista é um peluche sociopata que assassina criativamente outros ursos de peluche e os assusta ao ponto de cometerem o suicídio, mas sem qualquer vestígio de sangue. E temos jogos como “Hatred”, classificado como sendo só para adultos e interditada a sua entrada nas consolas de qualquer fabricante devido às animações excessivamente gráficas.

Não que os menores de idade deixem de ter acesso a estes “frutos proibidos”, principalmente quando os adultos não têm tempo ou uma preocupação em acompanhar o bom e correto desenvolvimento destas crianças e adolescentes. Podemos até passear pelos corredores de uma Fnac ou de uma Media Markt e ver “Bloodborne” ou “Mortal Kombat X” a ser experimentado por uma criança de 7 ou 8 anos, sem que esta tenha tempo limitado para testar o que os adultos costumam tanto abordar nos sites e nos grupos das redes sociais, e onde se inserem meticulosamente com a pequena e inofensiva mentira do “tenho pelo menos 13 anos” ou “nasci em 1970”.

Segundo a IGAC, uma demo de um jogo para M/18, mesmo contendo partes violentas, não necessita ter classificação da IGAC e pode legalmente ser acedido para experimentação por uma criança de qualquer idade. No entanto, “Bloodborne” esteve nas lojas Fnac para experimentação numa completa exibição de conteúdo, mas é, novamente segundo a IGAC, unicamente da responsabilidade de um adulto deixar ou não deixar aceder a este género de conteúdo. Não é da responsabilidade das lojas, como não é da responsabilidade dos promotores de eventos tauromáquicos a entrada de crianças a partir dos 3 anos de idade.

Então se não é pela componente sexual ou social e se não tem sangue, se é classificado para menores ainda que a classificação seja dúbia, o que é que move 65.000 pessoas contra a publicação de um jogo? A determinação para que “Toro” não veja a luz do dia é outra. É uma questão Moral? Ética? É pelo tema que tem gerado matéria abrasada durante anos entre pró-taurinos e anti-taurinos, não só em Espanha como também em Portugal, da normalização e perpetuação de um ato abusivo para os animais, neste caso para os touros. Mas é por atiçar o touro com uma capa vermelha? Não. É por espetar umas bandarilhas num touro? Um pouco. É pela ideia de se poder matar um touro por entretenimento? Plenamente. E as crianças podem ter acesso a esse “conteúdo”? Sim. Mas no jogo? Não. Então qual é o problema? O problema não é o jogo em si, o dilema está no conceito que o jogo transmite.

Tauromaquia é uma tradição, uma transmissão de uma prática que passa de geração para geração. Tenhamos como exemplo as orgias que também eram uma tradição no tempo dos Romanos, só não passaram de geração para geração porque a religião veio incutir como sendo um pecado e transformou-se num preconceito. Tauromaquia não é um pecado. Muito menos é um preconceito, porque se o fosse as praças estariam muito mais vazias de espetadores (uso propositado do novo acordo ortográfico) do que estão hoje em dia. O pecado é a desconsideração das leis divinas e dos dez mandamentos, que nos dizem “não matarás”. Só nunca foram específicos com o que não devemos matar, daí entender que deve abranger todas as plantas e os animais. Não são estes os nossos “próximos”?

Mas não quero saber o que é o pecado. Não sou Cristão ou religioso. Acredito muito mais no justo e no injusto, no certo e no errado. E humilhar ou matar por entretenimento é errado. Mas ainda estamos a falar de videojogos e de “Toro”? É que por esse caminho podemos dizer que se matamos tanta gente em “Call of Duty”, vamos todos para a rua começar a matar pessoas? Claro que não, não acredito no que a TVI me diz. É que já ouvi um tauromáquico em conversa com o Luís Goucha, no canal TVI, a afirmar que ele não era um animal e que os animais não tinham direitos. Ora, neste contexto também podemos acreditar que somos todos alienígenas aos olhos dos homens verdes de outros planetas, e que provavelmente ainda não tenham ditado direitos universais.

“Toro” também pode existir? Não, “Toro” deve existir. Tem todo o direito a existir a favor da liberdade de expressão. Porém, não se distancia muito da série “Cabela’s” – os jogos mais badalados da caça furtiva – que são um material promocional encapotado para aquela que é uma das maiores empresas do mundo de produtos de caça. É a dor de cabeça para os defensores dos animais, o que os faz levantar a meio da noite com um ataque de ansiedade. Mas qual é o problema em promover produtos de caça da “Cabela’s” ou até mesmo a tauromaquia num videojogo?

Mais uma vez, o problema não está no jogo em si, o dilema está no conceito que transmite: o ato abusivo para os animais que só servem para abater. E que por coincidência são jogos com classificação para menores, mesmo que se assuma que tem violência e sangue à mistura. Mas em “Toro” não poderemos matar o animal, nem sequer veremos um pingo de sangue, não faz deste um jogo mais aceitável aos olhos dos defensores do animais? Depende se o “Toro” tiver um carisma sociopata como um “Naughty Bear”.

Charles Darwin uma vez disse que “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. Estará a tauromaquia preparada para adaptar-se às mudanças? Não será este “Toro” um produto obsoleto para consolas de nova geração? E se a criação de videojogos nunca gozou de estatuto próprio em políticas de investimento, se faltam atualmente verbas na área da saúde e da educação, porque se continua a financiar a tauromaquia e jogos debruçados sobre o mesmo tema?

Frederico Lira, Rubber Chicken

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