A verdade perturbadora por trás do seu nado com golfinhos

golfinhoOlhar Animal

Por Christina M. Russo / Tradução de Alice Wehrle Gomide

Uma multidão de americanos está a caminho do sul do Caribe neste momento, em busca do sol ameno, da intoxicante brisa do entardecer, águas turquesas… e a oportunidade para nadar com golfinhos. Mas apesar da popularidade, os programas Swim-with-the-dolphin (Nado-com-golfinhos) tem um lado macabro, e as pessoas que trabalham neles estão começando a se manifestar contra.

Os programas Swim-with-the-dolphin (SWTD) podem ser encontrados ao redor do mundo, mas se tornaram extremamente populares no Caribe na última década. Um ex-treinador de golfinhos, que se manifestou somente na condição de anonimato, disse ao The Dodo que esses programas são intrinsicamente problemáticos – e que cetáceos simplesmente não pertencem ao cativeiro.

“Golfinhos são criaturas lindas e espetaculares em seu habitat natural”, disse o ex-treinador, que solicitou anonimato porque ainda trabalha no ramo de hotéis caribenhos. “Mas coloque-os em uma jaula, e você vê como eles mudam.”

A história de um treinador

Nascido e criado em Bahamas, o treinador disse que foi contratado por dois hotéis no Caribe que possuem o programa SWTD, e sua preocupação cresceu no decorrer do tempo. As jaulas usadas para manter os golfinhos não são somente excessivamente rasas, mas também muito pequenas. Ele disse que em um hotel mais de 40 golfinhos foram confinados em 3 compactas jaulas.

Em jaulas ao mar aberto – ao contrário das piscinas fechadas dentro do resort – detritos como pregos e anzóis flutuam no oceano, ele acrescenta.

“Pelo fato de eles não terem um veterinário ou qualquer tipo de atenção veterinária nesse (específico) resort, os golfinhos poderiam engolir esses detritos, e não teria nada que poderia ser feito”, ele diz. Apesar de ter visto as jaulas internas serem limpas, ele afirma que o cheiro de cloro era tão forte, que chegou a “sufocar” os treinadores – e que alguns animais eventualmente ficaram cegos por causa do uso desse produto.

Ele também afirma que muitos golfinhos apresentaram “psicose”, um comportamento comum em mamíferos marinhos forçados a nadar em jaulas pequenas o dia inteiro. Os animais também estavam sob extrema pressão para se apresentarem, o que pode torná-los perigosos aos humanos. “Eles faziam 10 interações ao dia… os mesmos movimentos, o mesmo discurso, os mesmos sinais sempre. Eles ficavam frustrados… e agressivos contra visitantes, ou derrubavam o balde com comida das nossas mãos.”

A acusação mais perturbadora do ex-treinador, entretanto, é que algumas fêmeas impediam seus novos bebês de respirarem – não deixando que eles subissem até a superfície. O treinador, que não é cientista, disse que ele e seus colegas deduziram que as mães agiam dessa forma porque não queriam que seus bebês tivessem que “viver em cativeiro”.

Apesar dessa acusação não poder ser provada, outro ex-treinador manifestou mais preocupações. Além disso, estudos apontaram alguns problemas com golfinhos cativos em geral. De acordo com um relatório feito por WAP – World Animal Protection/Humane Society of the United States (Proteção Animal Mundial/Sociedade Humana dos EUA) chamada de “The Case Against Marine Mammals in Captivity” (O Caso Contra Mamíferos Marinhos em Cativeiro), cetáceos em cativeiro recebem rotineiramente antibióticos e medicamentos para úlcera, e precisam de suplementos vitamínicos porque são alimentados com peixes congelados deficientes de nutrientes. Esses animais apresentam um histórico de mortes prematuras devido a uma variedade de causas.

Esse relatório também diz que, para muitos golfinhos, as jaulas têm menos de 1% do tamanho do seu habitat.Mas qual o problema de nadar com golfinhos?

“Swim with the dolphins” (SWTD) é um termo utilizado para uma variedade de itinerários com temática de golfinhos. Além de nadar com um golfinho (ou dois), você pode tirar uma foto com um desses animais, ser puxado pela água (o “reboque dorsal”), ganhar um beijo ou ser empurrado pela ponta do nariz de um golfinho. Você pode até mesmo pagar para ser um “treinador”, recebendo seu apito e manual de treinamento.

Há cerca de 30 delfinários no Caribe, diz Naomi Rose, uma cientista de mamíferos marinhos do Animal Walfare Institute – AWI (Instituto de Bem-Estar Animal). Eles podem ser encontrados em vários núcleos turísticas, incluindo Bahamas, Jamaica, Tortola, Grand Cayman, República Dominicana e Cancun.

Ainda mais instalações estão sendo construídas, incluindo uma que inaugurou recentemente em Punta Cana, na República Dominicana. Outras estão em negociação em Turcks e Caicos, e St. Lucia, diz Courtney Vail, gerente de programa e campanhas da Whale and Dolphin Conservation – WDC (Conservação de Baleias e Golfinhos), que vêm fazendo campanha contra o cativeiro de cetáceos por 16 anos.

O WDC documentou vários incidentes relacionados ao bem-estar animal no Caribe em 2010 em um relatório chamado “Captivity in the Caribbean” (“Cativeiro no Caribe”). Em uma instalação em Antigua, os golfinhos eram “anormalmente escuros”, devido às jaulas rasas e subsequentes queimaduras solares. Alguns animais foram encontrados em isolamento para fins de treinamento; e outros estavam expostos à água poluída.

“Apesar de alguns países caribenhos terem desenvolvido legislação para enfrentar esses programas de golfinhos em cativeiro, os regulamentos são raramente aplicados, e a maioria das instalações operam fora do radar, devido à falta de capacidade e supervisão”, Vail disse ao The Dodo.

Ceta-Base é um site que registra a captura, transporte e taxa de mortalidade dos golfinhos em cativeiro ao redor do mundo. Atendendo à solicitação do The Dodo, Ceta-Base estimou que há cerca de 240 golfinhos – capturados na natureza e nascidos em cativeiro – em instalações pelo Caribe, e que a maioria dos golfinhos selvagens veio de Cuba, Honduras e do Golfo do México.

O ponto de vista de um Delfinário

40 desses golfinhos estão em Dolphin Cay, uma instalação popular em Atlantis, um resort na Paradise Island em Bahamas. Inaugurada em 2007, Dolphin Cay é uma lagoa de 14 acres com “25 milhões de litros de água natural do oceano das Bahamas”, diz Greg Charbeneau, vice-presidente das Operações Marinhas.

Os primeiros golfinhos a viverem em Dolphin Cay foram relocados do Marine Life Oceanarium (Oceanário de Vidas Marinhas) em Gulfport, Mississippi, após o furacão Katrina em 2005. A transferência dos animais foi bem divulgada e se tornou o tema de um livro em 2007, “The Katrina Dolphins: One-Way Ticket To Paradise” (Os Golfinhos do Katrina: Passagem de Ida para o Paraíso, em tradução livre).

Já que Atlantis é uma das instalações mais populares, The Dodo solicitou uma resposta aos problemas de bem-estar com programas SWTD. Atlantis prioriza o bem-estar dos golfinhos com um time de 90 especialistas e veterinários para “garantir sua segurança e conforto o tempo todo”, disse Charbeneau em um e-mail ao The Dodo. Ele também explicou que os programas com golfinhos ajudam a ensinar pessoas sobre mamíferos marinhos e conservação, e é uma das paixões do local conservar a vida marinha.

Atlantis é reconhecida e autorizada pela Associação de Zoos e Aquários e pela Aliança de Parques e Aquários de Mamíferos Marinhos, e também é membro da Associação Internacional de Treinadores de Animais Marinhos, ele afirma.

A instalação teve 16 nascimentos de golfinhos com sucesso desde 2007 e mortalidade de somente um animal. Suas enseadas de interação, disse Charbeneau, tem 3 metros de profundidade.

Sam Duncombe, diretora do reEarth, uma organização com base nas Bahamas que foi responsável pelo fechamento de outra instalação SWTD no ano passado, discorda de algumas afirmações de Charbeneau. Nascida e criada na região, Duncombe disse ao The Dodo que ela vem lutando contra o desenvolvimento de delfinários – incluindo Atlantis – por quase 25 anos.

“Os ‘Golfinhos Katrina’ foram comprados, não resgatados”, Duncombe diz. “Foi uma gigantesca propaganda enganosa”. Duncombe também afirma que as jaulas onde os golfinhos ficam são “horríveis”.

“Quando eu vi o que eles construíram [para os golfinhos], eu chorei”, ela disse. “Os peixes no aquário têm muito mais (que eles), com corais e pedras. Esses golfinhos têm somente piscinas de concreto branco.”

Na verdade, a preocupação de Duncombe com a profundidade dessas piscinas é compartilhada pela cientista Naomi Rose, do AWI, que diz que os golfinhos normalmente mergulham até 2 metros. 3 metros, ela diz, “é muito raso!”

Todos a bordo: o papel dos cruzeiros

Como os delfinários no Caribe ficaram tão populares? Simples: os cruzeiros. “Cada proposta de uma nova instalação com SWTD foi aceita com base na necessidade de atender à demanda do turismo com cruzeiros”, disse Rose, que conta que a moda realmente começou nos anos 2000. Alguns delfinários, ela aponta, não possuem estacionamento: turistas simplesmente desembarcam, nadam com os cetáceos, depois reembarcam em seu navio gigante.

Estatísticas obtidas pelo Florida-Caribbean Cruise Association (Associação de Cruzeiros Flórida-Caribe) mostram que não há sinal de queda nas viagens. Seu relatório mais recente aponta o Caribe como o destino mais popular, tendo cerca de 37% do mercado em 2014, 3% a mais que o ano anterior.

“A menos que haja diminuição na demanda, que são os passageiros de vários navios cruzeiro e turistas norte-americanos, os delfinários continuarão abertos no Caribe”, disse Diana McCaulay,presidente do Jamaica Environment Trust – JET (Ambiente de Confiança da Jamaica), que protesta contra delfinários na Jamaica.

Como golfinhos selvagens acabam em cativeiro

McCaulay disse ao The Dodo que uma de suas maiores preocupações é o processo de captura de golfinhos na natureza: É “muito traumático”, ela diz.

“Eles são perseguidos com redes… são encurralados, os escolhidos são selecionados, então eles são erguidos até um barco e transportados”, ela explica, adicionando que as fêmeas são preferidas porque elas são mais “treináveis”.

Uma carta escrita em conjunto por AWI e WDC em dezembro de 2014 em protesto a um delfinário proposto em Bird Rock Beach, St. Kitts, detalha como os golfinhos são capturados na natureza:

Os animais podem ficar presos nas redes de captura e sufocarem, ou sofrerem condições relacionadas ao estresse associadas ao trauma da captura. Em adição, as capturas na natureza podem impactar negativamente populações já baixas de golfinhos pela remoção de membros reprodutores (ou importantes) do grupo.

A carta aponta que dados científicos de 1995 mostraram que a taxa de mortalidade de golfinhos bottlenose (golfinho roaz-corvineiro ou nariz-de-garrafa) capturados vem dramaticamente aumentando durante a captura e o transporte.

Ainda por cima, “métodos usados para transportar os cetáceos podem ser desumanos, e muitos indivíduos morreram por causa de lesões e estresse provocados pelo esforço de fornecer esses animais para instalações ao redor do mundo”.

Uma revisão da Ceta-Base mostra quão frequente os golfinhos são transportados. Um golfinho fêmea, por exemplo, chamada de Tamra, foi transportada 14 vezes. De acordo com Ceta-Base, ela está no momento em Atlantis.

O ciclo sem fim: procriando para o cativeiro

Embora alguns lugares ainda capturem golfinhos da natureza, muitos delfinários no Caribe mantêm seu estoque com animais nascidos em cativeiro. Outra companhia proeminente do Caribe é a Dolphin Cove, com base na Jamaica. A Dolphin Cove Ltd. possui uma quantidade de delfinários na região e ganhou um World Travel Award – “o Oscar da indústria turística” – desde 2011.

Os proprietários da Doplhin Cove, Stafford e Marilyn Burrowes, recentemente contaram ao jornal The Jamaica Observer que a companhia lançou um programa de reprodução de golfinhos em cativeiro quatro anos atrás. Cinco dos seus golfinhos já deram filhotes. “Atualmente é quase impossível pegar golfinhos da natureza por causa das ações dos grupos ativistas”, Stafford Burrowes contou ao jornal.

Duncombe, da organização reEarth, disse que uma das várias preocupações a respeito da reprodução em cativeiro é que os golfinhos nascidos lá estão perdendo seus instintos: “O que essas instalações estão fazendo… é criar uma inteira subestrutura de animais que não têm condições de viver na natureza”.

No final, Duncombe espera que o público comece a prestar mais atenção à situação dos golfinhos em cativeiro. Mas para o turista que ainda está pensando em nadar com golfinhos, ela diz sem rodeios:

“Sua vontade de estar com eles – está matando-os”.

Fonte: The Dodo

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