Os animais selvagens sofrem com os antibióticos que usamos (e abusamos)

HipopotamoObservador

Por Vera Novais

A sociedade está cada vez mais obcecada com os germes – basta ver pela publicidade aos sabonetes e detergentes que “eliminam 99,9% das bactérias”. A isso juntem-se os pedidos desesperados dos doentes que querem antibióticos para tratar qualquer doença – e os médicos que inconscientemente o fazem – e estão criadas as condições ideiais para que se desenvolvam bactérias super-resistentes. Até os animais selvagens sofrem com isso.

Como? De cada vez que usar um antibiótico ou um desses sabonetes “mata-germes” não vai conseguir eliminar todas as bactérias (“99,9%”, mostra logo que não há garantias). Naturalmente as que sobrevivem são as mais fortes, estão melhor adaptadas para sobreviverem às adversidades, e caso se multipliquem, esse antibiótico ou sabonete já não serve para as matar.

Pior do que os antibióticos que tomamos são os antibióticos que usamos (e abusamos) nos animais de criação. Se um antibiótico não for completamente metabolizado no fígado e transformado noutro composto, acaba por ser eliminado na urina contaminando as águas residuais. Como as estações de tratamento de águas residuais não têm capacidade para eliminar antibióticos, nem tão pouco as hormonas das pílulas femininas, a água tratada que sai da estação não está assim tão “limpa”.

A poluição da água dos rios e lagos com antibióticos (mas também com hormonas e outros compostos resultantes dos medicamentos que tomamos) vai afetar, no mínimo, as espécies selvagens que dele dependem. Lembre-se que os humanos, os mamíferos e outros animais dependem das bactérias – das “boas” -, que controlam e combatem as bactérias “más”, que ajudam na digestão e das quais dependemos para sobreviver – 90% dos células do corpo humano são bactérias.

Até os animais selvagens do Parque National do Chobe e das duas aldeias no norte do Botswana estudados parecem estar a sofrer as consequências desta contaminação, segundo as investigadoras Sarah Elizabeth Jobbins e Kathleen Ann Alexander, do Instituto Politécnico da Virgínia (Estados Unidos) e Centro de Conservação dos Recursos Africanos (Botswana), noticia a Quartz. Cerca de metade das amostras de fezes das 18 espécies – fossem leopardos, girafas ou elefantes – tinham bactérias resistentes aos 10 tipos de antibióticos testados, conforme os resultados publicados na revista científica Journal of Wildlife Diseases.

“O aparecimento de resistência anti-microbiana é provavelmente a ameaça mais importante à saúde humana e animal”, começam as autoras no artigo. Os efeitos dos antibióticos podem chegar muito longe do sítio onde foram inicialmente prescritos. Esta dispersão da resistência das bactérias por vários locais diferentes aumentam as fontes e o perigo para os humanos. Imagine uma manada de elefantes, carregados de bactérias resistentes no intestino, nas suas extensas migrações em África – é fácil perceber como as bactérias podem rapidamente chegar a outros locais.

Segundo o estudo, as espécies mais afetadas por enquanto são as espécies que dependem da água, como os hipopótamos, os carnívoros (que se alimentam de animais contaminados) e as espécies que vivem junto às zonas urbanas. Mas para as bactérias não existem limites.

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