Robin Grimes: “Usar menos animais como cobaias gera melhores resultados científicos”

cobaiaÉpoca

Na última semana, o Conselheiro-Chefe para Assuntos Científicos do Reino Unido, Robin Grimes, veio ao Brasil para assinar dois acordos de cooperação científica com o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Um dos acordos é sobre o Fundo Newton, para financiar pesquisas científicas, e o outro é uma carta de intenção para reduzir o uso de animais em testes científicos. Segundo ele, diminuir a quantidade de animais usados em testes é positivo não só do ponto de vista ético, mas também resulta em melhores resultados científicos. Em entrevista a ÉPOCA, Grimes também falou sobre questões como as tecnologias disruptivas e o uso da energia nuclear.

ÉPOCA – O senhor veio ao Brasil para assinar dois acordos científicos. Do que se tratam esses acordos?
Robin Grimes –
O primeiro acordo é sobre o Fundo Newton, que é uma colaboração do Reino Unido com uma série de países, incluindo o Brasil. Na verdade, o Brasil é um dos mais importantes. O Reino Unido investirá 9 milhões de libras por ano em atividades de pesquisa colaborativa com o Brasil, e o Brasil também investirá. É realmente uma colaboração entre os países. A ideia é cooperar em pesquisas associadas aos grandes desafios da sociedade, como combate à pobreza, abastecimento de água, geração de energia, clima. Como esse acordo funciona? Nós teremos metas para algumas áreas, e pesquisadores tanto do lado do Brasil quanto do Reino Unido poderão buscar financiamento para seus projetos. É uma forma de criar colaboração científica dos dois lados.

ÉPOCA – E o outro acordo é sobre uso de animais como cobaias, certo?
Grimes –
O outro, é importante deixar claro, não é um acordo no ponto de vista legal. É uma Carta de Intenções dos dois países. A carta demonstra a intenção de Brasil e Reino Unido de, não vou dizer acabar, mas diminuir o uso de animais em testes científicos. Nós acreditamos que possa ser positivo reduzir o uso de animais, tanto para o Brasil quanto para o Reino Unido, mas não é algo simples de se fazer. São problemas complicados, que exigem a cooperação internacional para enfrentá-los.

ÉPOCA – Por que reduzir o uso de animais?
Grimes –
Nós acreditamos que há formas mais eficientes de se fazer ciência do que testando em animais. Nós podemos substituir esses testes por outros mecanismos, e esses mecanismos alternativos podem gerar evidências mais robustas para as pesquisas. Na prática, ao criar testes alternativos que não usem ou usem menos animais, teremos melhores resultados nos trabalhos científicos.

ÉPOCA – Quer dizer que não é uma questão de ética ou direito dos animais?
Grimes –
Não me leve a mal, eu fico muito feliz de saber que menos animais estarão sendo usados como cobaias! Temos que falar do bem-estar dos humanos e do  bem-estar dos animais, e os dois vêm juntos. Como a gente reduz o uso de animais em testes? Na hora de elaborar os experimentos, por exemplo. Ao elaborar o experimento de forma mais cuidadosa, o cientista pode reduzir o número de animais. Ele pode substituir por processos sintéticos. Em alguns casos, pode ser que o pesquisador consiga substituir todos os animais. Em outros, talvez não dê para substituí-los, mas só de tratar bem o animal, provocando menos estresse, pode ser o suficiente para ter um resultado mais representativo, com evidências mais claras e robustas. É sobre o bem-estar dos animais, claro, mas é também sobre conseguir melhores resultados científicos.

ÉPOCA – Além dos acordos, o senhor também fez uma palestra aqui no Brasil sobre a importância de usar a ciência na diplomacia. Qual é essa relação entre ciência e diplomacia?
Grimes –
São três aspectos. O primeiro é a “Ciência na Diplomacia”, que é fazer política com base em evidências científicas. As decisões diplomáticas são melhores se elas se basearem no conhecimento científico. Depois, temos a “Diplomacia para a Ciência”, que é quando você precisa fazer acordos entre os países para apoiar atividades científicas. Os dois acordos que assinamos aqui são um exemplo. O terceiro é o mais interessante, que é a “Ciência para a Diplomacia”. Em alguns países, temos relacionamento diplomático difícil, as vezes é difícil dialogar. Mas cientistas muitas vezes conseguem abrir o diálogo com essas nações. Um exemplo está ocorrendo agora: nós temos vulcanólogos britânicos trabalhando na Coreia do Norte, medindo a atividade vulcânica. Como é um vulcão ativo, é uma fonte de preocupação aos norte-coreanos e eles estão interessados em usar ciência internacional para conseguir prever quando o vulcão pode entrar em erupção. Por isso eles buscaram colaboração internacional. E para os cientistas britânicos é uma ótima oportunidade de estudar um vulcão ativo e interessante. É algo que beneficia os dois países. Não é fácil conversar com a Coreia do Norte. Mas a cooperação entre cientistas pode dar um ponto de partida para diplomatas iniciarem esse diálogo.

ÉPOCA – Um caso de mistura entre diplomacia e ciência é a Conferência do Clima, no final do ano, que vai debater um acordo sobre mudanças climáticas. O senhor acredita que é possível ter sucesso nessa conferência?
Grimes –
Certamente os cientistas são capazes em firmar um acordo entre países sobre o que eles acreditam se o melhor. O interessante da ciência é que eles podem ter grandes discussões, mas aqueles que são realmente cientistas podem analisar os dados e, dependendo das evidências, mudar de opinião. É completamente aceitável para um cientista dizer que pensava de determinada forma mas, após analisar a evidência, percebeu que estava errado.

ÉPOCA – Mas quem toma as decisões, nesses casos, são os políticos, e eles raramente admitem que estão errados.
Grimes –
Eu acho que pode ser mais fácil para um político dizer que está errado se a evidência científica evoluir, mudar, e eles puderem dizer que agora entendem o que a ciência está dizendo, que antes não havia tanta evidência. Talvez essa possa ser uma base para que eles mudem de ideia. A chave aqui é que as decisões precisam ser tomadas de acordo com o conhecimento científico.

Agora, claro, nem toda política pode ser baseada puramente na ciência. Minha posição pessoal é que eu não me importo se o público não quiser usar uma tecnologia disruptiva, por exemplo, que eu considere boa, desde que o público tenha acesso ao conhecimento. É o público que deve decidir o que quer. O cientista providencia a evidência que pode apoiar essas decisões. A ciência dá poder para as pessoas tomarem decisões de olhos abertos. Isso é importante. O público tem que estar de olhos abertos, e não enganar a si mesmo.

ÉPOCA – O que seria uma tecnologia disruptiva?
Grimes –
É mais fácil explicar se olharmos para trás. O celular foi uma tecnologia disruptiva. As tecnologias de ruptura podem ser boas. Eu posso dizer que, em geral, o celular foi positivo, você pode estar sempre em contato com as pessoas. Mas é de ruptura porque mudou a forma como a indústria de telecomunicações funcionava. Empresas que não acompanharam as mudanças faliram, e novas empresas assumiram o lugar. E nem todo mundo acha que é uma boa ideia ter um celular e estar em contato com todo mundo o tempo todo. Outro exemplo é o computador pessoal. Antes dele, havia empresas que construíam máquinas de datilografia, e pessoas cujo trabalho era datilografar. Essas pessoas perderam seus trabalhos. É melhor hoje, com o computador? Eu acho que foi bom. Mas a sociedade precisa estar bem informada e entender o que está em jogo ao adotar ou rejeitar essas tecnologias.

ÉPOCA – O senhor trabalhou por um tempo com tecnologia nuclear, e essa é certamente uma dessas tecnologias das quais o público tem certo receio. Como está a questão da tecnologia nuclear hoje, após o acidente em Fukushima?
Grimes –
O que aconteceu após Fukushima foi uma polarização entre os países. Alguns países, como a Alemanha, decidiram parar completamente o programa nuclear. Outros, como a China, entenderam que vale a pena enfrentar os riscos e aceleraram o desenvolvimento de seus programas. Hoje há mais reatores nucleares sendo construídos na China do que em todo o resto do mundo. Certamente, o entendimento do público sobre o uso da tecnologia nuclear é algo que precisa ser trabalhado. De novo, é uma questão se países vão ou não trilhar determinado caminho, e é importante que eles tomem essa decisão com base em conhecimento e evidências, entendendo os desafios de engenharia e as consequências envolvendo a energia nuclear.

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