Afundou dois navios em Portugal em nome da defesa das baleias

sea shepherdJN

Por Cristiano Pereira

É um dos mais memoráveis episódios da história do ativismo ambientalista na defesa dos oceanos. Na viragem da década de 70 para 80, o canadiano Paul Watson declarou guerra aos caçadores de baleias e afundou dois navios em Portugal.

A operação marcou o início das missões da Sea Shepherd. Aqui se relata o que aconteceu. E o autor da proeza conta tudo ao JN.

Dizia-se que o arpão daquele navio já tinha dizimado mais de 25 mil baleias mas ninguém sabia exatamente quem seria o seu proprietário. Chegavam denúncias, daqui e dali, dando conta das suas implacáveis ações e dos seus arrepiantes métodos de extermínio. A tripulação do navio Sierra chacinava famílias inteiras de baleias, incluindo as crias, e o seu procedimento era aniquilar todo ou qualquer cetáceo que se lhe deparasse. A meio da década de 70 torna-se no alvo prioritário dos ambientalistas.

Em 1977, Paul Watson, então com 27 anos, abandona a Greenpeace, que ajudara a fundar, por estar “cansado de conversas estéreis” e pouca ação concreta. Sem um tostão no bolso, desata a procurar financiamento para a compra de uma embarcação que lhe permita cumprir o seu objetivo de vida: combater os inimigos dos animais marinhos. Consegue-o através de Cleveland Amory, um escritor que consagra a sua vida à defesa dos direitos dos animais e preside a Fund For Animals. Watson compra a Westella, uma antiga traineira britânica de 60 metros, e rebatiza-a de Sea Shepherd. “Foi o primeiro navio da História a dedicar-se exclusivamente à defesa da vida marinha”, dirá anos mais tarde.

Paul Watson reforça o casco com 100 toneladas de cimento armado para que o navio funcione como quebra-gelo numa campanha contra a caça de focas no Canadá em março de 79. Depois disso, coloca um anúncio no Boston Globe para recrutar tripulação disposta a lançar-se ao mar à procura do Sierra. Aparecem 19 homens de várias nacionalidades, a maioria estudantes e apaixonados da natureza. Partem pelo Atlântico rumo aos Açores. Estão uns dias na cidade da Horta até receberem a informação de que o Sierra zarpara do Senegal rumo ao norte. Levantam âncora sem demoras. A 16 de julho de 1979, o alvo mais apetecido é finalmente avistado a 200 milhas a oeste de Leixões. Paul Watson esfrega as mãos e faz logo questão de mostrar que não está ali com rodriguinhos.

“Sem mais nem para quê começaram com tentativas de abalroação, fazia muito mau tempo, viajávamos há 22 dias, tínhamos saído do Senegal com pouco mais de 20 baleias e estávamos em pleno alto mar. Vimo-nos seriamente em perigo e tentamos fugir”, relata ao JN, dias depois, o assustado chefe de máquinas do Sierra, um português chamado Luís Mendes. Sentindo-se perseguido e hostilizado, o Sierra procura abrigo ao porto de Leixões, destino já planeado para descarregar a carne de baleia e transbordá-la para um navio frigorífico com destino ao Japão. Será a sétima vez que o Sierra encosta em Leixões para descarregar baleias mortas.

Sempre perto para evitar fugas, o Sea Shepherd dá entrada em Leixões às 10 horas do dia 17 de julho. Atraca na Doca 1 para reabastecer e a sua tripulação fica a controlar o Sierra através de binóculos. Paul Watson pressente que o inimigo, parado meia milha a oeste do molhe, se prepara para fugir e avisa a sua equipa de que irá passar ao ataque. Com receio do que aconteça, 17 tripulantes abandonam o navio. Às 13.30 horas, Watson liga os motores e arranca sem avisar a capitania.

“Eram verdadeiros piratas com asas postiças de anjos. Surgiram-nos com lenços na cabeça e com fitas nos cabelos, como os antigos piratas”, contou depois o tripulante português do baleeiro. Sem cerimónias, o Sea Shepherd embate de proa contra a amura de bombordo do Sierra, provocando-lhe um rasgão vertical de dois metros próximo da proa e amolgando-a numa extensão de dez metros. Esse primeiro choque visa destruir o canhão arpoador. Ato contínuo, o Sea Shepherd faz uma larga curva de 360 graus a bombordo e volta com a proa apontada a meio do casco do Sierra, a estibordo, embatendo a 30 nós uma segunda vez a meia nau e causando danos no compartimento de carga e sistema de refrigeração.

Sem demoras, e com o Sierra atordoado e seriamente danificado, Watson abala para norte, tentando escapar para Inglaterra. A corveta Limpopo da Marinha de Guerra Portuguesa lança-se em sua perseguição. Pelas 18 horas, os militares portugueses apanham o navio dos ambientalistas a cinco milhas de águas territoriais espanholas e obrigam-no a regressar a Leixões. Paul Watson é levado à capitania e assume a façanha. Horas depois, o comandante Albuquerque da Capitania do Porto de Leixões diz à imprensa que Watson e companhia não escondem que a ação foi propositada e deliberada “e não só o confessam prontamente como fazem disso ponto de honra”.

Imobilizado junto às docas, o Sierra aproveita para descarregar 280 toneladas em fardos de 10 quilos da carne de baleia que fora produto da safra. Paul Watson é libertado e diz aos jornalistas portugueses que o ato serviu para “chamar a atenção da opinião pública mundial para o extermínio das baleias”. O caso ganha repercussão internacional. Por cá, o Diário de Notícias fala num “acontecimento invulgar e desconcertante”.

Seguem-se meses de confusão jurídica e pedidos de indemnizações. Em novembro, o Tribunal de Matosinhos decreta que o Sea Shepherd ficará retido como garantia de pagamento de indemnizações aos armadores do Sierra. Segundo Watson, as autoridades só libertariam o Sea Shepherd mediante o pagamento de 750 mil dólares – e isto para um navio que custara 120 mil.
Inconformado perante a possibilidade de ver a sua embarcação nas mãos de baleeiros – “a ideia era-me insuportável”, confessará mais tarde – Watson telefona a Peter Woof, que se encontra na Escócia, e desafia-o a encontrarem-se em Leixões para tentarem recuperá-lo. O plano é este: entrar no navio na madrugada de 29 de dezembro, ligar os motores e fugir sorrateiramente. O plano falha: quando sobem a bordo do Sea Shepherd reparam que tudo havia sido roubado durante aqueles cinco meses ancorado em Leixões. A aparelhagem náutica, os radares, 80 toneladas de combustível, as mantas, os acessórios de cozinha e até as instalações elétricas – tudo fora surripiado por mãos alheias.

Furiosos, os dois ambientalistas passam ao plano B. Na noite de 31 de dezembro, em plena passagem de ano, por volta da meia-noite, voltam com uma chave inglesa e lanternas e abrem as duas válvulas de fundo na casa das máquinas, uma a bombordo e outra a estibordo. “Uma coluna de cinco metros de água jorrou com violência e quando saímos já tínhamos água acima dos tornozelos. Sentia o coração apertado, o seu destino estava traçado”, confessará Watson décadas mais tarde. O Sea Shepherd afunda-se em poucas horas enquanto Portugal brinda com espumante e come uvas passas.

No dia seguinte, o comandante da Polícia Marítima de Leixões, Bessa Gil, comenta com a imprensa que “o caso está envolto de um certo mistério”. E ninguém sabe dos autores da proeza. Peter Woof atravessa o rio Minho a nado e escapa para Espanha. Paul Watson consegue ludibriar os guardas fronteiriços, foge para Inglaterra, e convoca uma conferência de imprensa para assumir a operação.
“Terror dos baleeiros sepultado em Leixões – os navios baleeiros de todo o mundo podem agora respirar de alívio”, publica “O Primeiro de Janeiro” na sua primeira página de 3 de janeiro de 1980.
Entretanto, o Sierra tinha sido deslocado para os estaleiros da Lisnave, em Almada, para “reparações na ordem dos 25 milhões de escudos” como referiam os jornais da época portugueses. No dia 11 de janeiro de 1980, atravessa o Tejo e lança âncora na Doca do Jardim do Tabaco, em Lisboa. Está pronto para voltar à faina e prepara-se para levantar ferro e zarpar no último dia de fevereiro.

Na madrugada de 6 de fevereiro, alguém mergulha no Tejo e coloca uma mina magnética no porão do Sierra, a meia nau. Segue-se uma explosão e um rombo de seis metros no casco. O Sierra afunda-se em dez minutos, tempo suficiente para serem evacuadas as 4 ou 11 pessoas (as versões variam) que estão a bordo. Nenhuma fica ferida.

Nesse dia, Paul Watson está numa sala de tribunal no Quebeque, Canadá, para prestar declarações sobre uma campanha contra a caça às focas. “Claro que eu fui logo o suspeito número 1, mas haverá melhor álibi do que estar nesse dia numa sala de tribunal?”, comentará anos mais tarde.

Dois dias depois, os jornais noticiam que “um ativista ecológico que pediu para não ser identificado declarou à agência UPI estar absolutamente certo de que a explosão que afundou o Sierra não foi um acidente”. “Posso dar 100% de garantias de que a explosão foi provocada”, afirmou.

Apesar de ter regressado algumas vezes a Portugal nos anos seguintes, quase três décadas depois do incidente, em junho de 2009, Paul Watson é detido no aeroporto da Madeira quando se dirige para uma reunião da Comissão Baleeira Internacional. “Mas duas horas depois disseram-me que eu podia ir embora porque o mandado de detenção em meu nome afinal já tinha expirado”, conta agora ao JN.

Em 2012, no livro “Entretien avec un pirate”, de Lamya Essemlali, Paul Watson afirma: “Eu nasci para afundar o Sierra. Se eu não tivesse feito mais nada, colocar um fim à carreira desse navio teria sido suficiente para dar sentido à minha vida”.

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