Os ouriços são o novo animal da moda — e isso pode não ser uma boa notícia

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Nota de Redação: Nenhum animal deve ser enclausurado e em nenhum caso a compra de animais em lojas ou a captura de animais selvagens é aceitável, no entanto a notícia transmite ãlgumas informações úteis sobre um animal que, apesar de relativamente comum nos nossos campos, ainda é um desconhecido para a maioria da população.

Nas gaiolas azuis com mais de um metro de comprimento, duas etiquetas fazem as apresentações. Escondidos entre papel de jornal rasgado em tiras, Mateus e Daisy estão em processo de recuperação: foram recolhidos da rua, em mau estado, no início do mês de Abril. Mateus, o mais sociável, tinha 250 gramas e já tem 639, Daisy, envergonhada e menos dada a meiguices, pesava apenas 135 gramas mas já engordou até aos 651. Dali a dias, os dois ouriços europeus serão devolvidos à natureza — o lugar desta espécie de animais selvagens — e Clarisse Rodrigues, a fundadora da Amigos Picudos, associação para a preservação e protecção dos ouriços, terá mais dois casos de sucesso para juntar a uma lista com já mais de 60 em três anos.

 

É um número curto se comparado com associações internacionais a batalhar por estes animais, mas enorme para Clarisse e o namorado Tiago Vieira, a combater quase sozinhos uma guerra maior do que eles. Os ouriços não são considerados animais em vias de extinção. Estão na lista dos “pouco preocupantes” — e isso, diz Clarisse, “é uma grande preocupação”. “Efectivamente, estão em extinção. Há 50 anos, havia 36 milhões em Inglaterra. Neste momento, há apenas um milhão. Teve uma taxa de declínio igual à dos tigres.” Em Portugal, nem sequer há estudos sobre a matéria.

 

Quando a aventura começou, o casal, com morada na Maia, a mesma onde instalaram a associação, não tinha qualquer formação na área. Ele, 27 anos, tem o 12º ano, um curso de técnico de aparelhos de ar-condicionado e é chefe de produção numa fábrica. Ela, 29, é licenciada em turismo e estava desempregada. Foi essa condição que a empurrou para isto, em finais de 2012: passava horas na internet, a fintar a tristeza, em pesquisas sobre ouriços. Queria saber mais sobre os animais que tinha em casa e pelos quais se apaixonou ainda miúda, quando os vislumbrava de tempos a tempos nas ruas de São Mamede de Infesta, em Matosinhos. A loucura à volta dos ouriços em Inglaterra percebeu-a online: naquele país havia imensas pessoas e associações a cuidar destes animais. E em Portugal, concluiu, “ninguém fazia aquilo”. “Havia centros de animais selvagens a receber ouriços, mas nenhum especializado neles.”

 

Num momento de loucura, investiu parte das poupanças na criação de uma associação. Nascia, em Janeiro de 2013, a Amigos Picudos. Objectivo: informar as pessoas sobre os cuidados a ter quando se encontra um pigmeu europeu, a única espécie presente em Portugal e que é proibido ter em casa (já vamos à aula), e ajudar a comunidade de donos dos ouriços pigmeus africanos, animais domésticos, a conhecer melhor os bichos.

 

O que Clarisse e Tiago não imaginavam era que ao fim de pouquíssimo tempo estivessem já a receber pedidos de socorro. “Ligavam e diziam: ‘Encontrei um ouriço, podem ficar com ele?’ Não estávamos à espera daquilo.” O casal viajou então até Beckford, uma pequena cidade a quatro horas de comboio de Londres, para fazer uma formação no Vale Wildlife Hospital and Rehabilitation Centre. Durante um fim-de-semana aprenderam princípios de primeiros socorros, a identificar patologias como infecções fúngicas ou sarnas, a despistar e fazer análise de parasitas internos, recolhendo fezes e analisando-as ao microscópio. Na associação, têm um prontuário e conseguem alguma autonomia em tratamentos mais básicos. Quando os casos são complicados, contam com o apoio de Carla Monteiro, médica veterinária do Zoo de Santo Inácio, em Vila Nova de Gaia.

 

Clarisse teve o seu primeiro pigmeu africano em 2008. Um dia, com o pai como cúmplice e a mãe sem saber do assunto, foram passear até Lisboa e pararam numa loja de animais exóticos. Comprou lá a Maria Pipoca. Nunca mais deixou de ter ouriços — mas em vez de os comprar, passou a “resgatá-los” em situações de aflição: “Desde animais no OLX até bichinhos em lojas de animais sem quaisquer condições”, contou ao P3.

 

“Ter animais por moda é sempre mau

Nos últimos anos, os pigmeus africanos tornaram-se cada vez mais cobiçados. “Estão na moda”, diz Clarisse com ar pouco satisfeito: “Ter animais por moda é sempre mau. As pessoas vão às lojas comprar porque os acham giros e muitas vezes não têm qualquer noção da responsabilidade.” Este animal exótico, cujos preços variam entre os 70 e os 150 euros, precisam de gaiolas ou recintos com um mínimo de um metro de comprimento, têm obrigatoriamente de ter uma roda com 30 ou mais centímetros de diâmetro (não são fáceis de encontrar, mas esta associação ajuda), porque durante a noite chegam a fazer nove quilómetros, e manta de aquecimento, já que os pigmeus africanos não hibernam mas são particularmente sensíveis a baixas temperaturas. No total, o investimento inicial ronda os 300 euros.

 

Apesar de serem insectívoros, os ouriços são tecnicamente omnívoros: “Comem um bocadinho de tudo”, explica Clarisse. Em casa, deve dar-se comida de gato, mas “apenas de gama alta, porque têm estômagos muito sensíveis”. Proibido é dar pão e leite de vaca: “As pessoas pensam que estão a fazer uma coisa boa e matam-nos.”

 

A distinção entre os ouriços europeus e africanos — entre os que são selvagens e não devem ser retirados da rua, a menos que estejam feridos, e os domésticos — é importante. Há ainda quem encontre os primeiros e os queira levar para casa e isso, diz Clarisse Rodrigues, “é um erro fatal”. Quando alguém encontra um ouriço europeu bebé, ferido ou a vaguear sozinho durante o dia, deve ficar em alerta: “Nesses casos, as pessoas devem recolher o animal de imediato e pedir ajuda”, que a Amigos Picudos dá por telefone, e-mail ou Facebook . Para pegar no animal, deve usar-se uma manta ou peça de roupa para não sair picado. Quando estão tensos, estes animais enrolam-se e os picos ficam muito duros, o que pode ferir a pessoa e até, em casos mais raros, transmitir-lhe alguma doença.

 

À associação já chegaram casos dramáticos de animais atropelados, subnutridos ou com parasitas em excesso, como o “Rampinhas”, um ouriço recolhido em Famalicão que tinha mais de 70 carraças. A taxa de sucesso na recuperação dos animais é muito grande — mas isso exige um trabalho gigante. Clarisse e o namorado repartem as tarefas: limpezas diárias das caixas ao fim do dia, comida e água de manhã, medicações. E além dos ouriços europeus, num entra e sai, têm ainda quatro domésticos: o Pinky, um albino com dois anos, o Kiko, ouriço cinza com três anos que faz medicação de 12 em 12 horas, o Rubi, outro albino com três anos, e Mamy, a mais velhinha, com cinco anos. Em média, estes animais, que têm entre seis e sete mil picos e mais de 90 combinações de cores, vivem quatro a cinco anos.

 

Há um défice de informação — e de estudo — sobre ouriços. E até em lojas comerciais se cometem erros básicos, lamenta Clarisse. Um exemplo? Juntar dois ou mais animais na mesma gaiola: “Os ouriços são solitários. Uma gaiola só dá para um. Macho com macho dá luta, macho com fêmea dá quase sempre gravidez.” Para combater a desinformação, a Amigos Picudos tem, entre outras coisas, um serviço de ida a escolas. À sede improvisada, chegam cada vez mais “picudos” e Clarisse e Tiago refinam o desenrascanço. É que a associação sobrevive sem qualquer apoio da autarquia local ou vizinhas (e não por falta de pedidos). “É um bocadinho ingrato.” Com algum suporte, diz em tom de apelo, facilmente se tornariam no “maior centro de reabilitação ibérico”.

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