Não será nossa última ação, diz ativista atacado por invadir tourada em Lisboa

13321820_477783662415055_8367451186256013782_nSputnik News

O holandês Peter Janssen invadiu uma arena em Lisboa na última semana para protestar contra as touradas e foi atacado por um grupo de cerca de 30 pessoas. Alvo de socos de pontapés, o ativista diz que foi salvo da morte pela polícia e promete que os protestos contra o uso de animais em atividades de entretenimento continuarão em Portugal.

Quando planejou protestar invadindo a principal arena de touros de Lisboa o ativista Peter Janssen sabia que não seria recebido com flores. Acostumado a ações como essa, já repetidas na Espanha, o holandês passou a saltar nas arenas para exibir suas mensagens de protesto com um capacete de rugby para se proteger da agressividade usual com a qual seria retirado do local onde entrou sem ser convidado. No entanto, a violência do ataque sofrido na última quinta-feira na Arena do Campo Pequeno, na capital portuguesa, surpreendeu o ativista. Em entrevista à Sputnik, ele contou que ouviu dos policiais que foi salvo da morte.

Após ser retirado da arena, ainda com o peito nú e as frases “Basta de touradas” e “Respect for animals” pintadas no corpo, Janssen foi atacado por cerca de 30 fãs de touradas a socos e chutes. “É uma vergonha usar tanta violência contra um protesto pacífico de um ativista”, diz.

O protesto aparentemente solitário de Peter Janssen na verdade é endossado por milhares de pessoas. No mês passado, uma grande marcha reuniu milhares de pessoas em Lisboa contra o uso de animais em atividades de entretenimento. A polêmica sobre a legalidade das touradas é antiga e continua sendo debatida atualmente em Portugal e na Espanha. Na mesma semana na qual o ativista holandês invadiu a arena em Lisboa, o Parlamento português rejeitou uma proposta de lei para proibir a participação de crianças em touradas. Esse foi um dos motivos alegados por Peter para realizar o protesto em Portugal.

O projeto do partido PAN (Pessoas-Animais-Natureza) que foi rejeitado em plenário visava vetar a participação de menores de idade nas corridas de touros alegando que estão sendo descumpridos os direitos humanos e da criança. O tema teve grande repercussão e os partidos liberaram os deputados para a votação. Assim, houve uma grande divisão. A proibição teve votos favoráveis de partidos de esquerda, do próprio PAN e do Bloco de Esquerda, e alguns apoios no Partido Socialista. Os parlamentares da direita, mais os deputados comunistas e alguns do PS votaram contra.

Os proponentes da proibição alegam que Portugal se comprometeu perante o Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU a proteger as crianças e os jovens da violência das touradas. O Comitê dos Direitos da Criança também já havia recomendado ao governo que tomasse medidas para evitar que crianças participem de treinos e assistam aos eventos com touros.

As corridas de touros, touradas ou tauromaquia, espetáculo tradicional que data de quase mil anos atrás, são especialmente fortes na Península Ibérica. Portugal e Espanha consideram, legalmente, esses eventos como patrimônio imaterial e cultural. No entanto, há regiões nos dois países onde as touradas já são proibidas ou limitadas. Ainda há questões pendentes, como a proibição levada a cabo pelas autoridades locais da Catalunha, na Espanha, que depende de decisão da justiça espanhola.

Em Portugal, apesar da realização desse tipo de evento ser legal em todo o território nacional, há diversos movimentos de grupos de defesa dos direitos dos animais que questionam permanentemente as touradas. O movimento chega até a pregar o boicote à televisão pública portuguesa (RTP) durante as transmissões ao vivo desses atos. Na semana passada, por exemplo, após a emissora anunciar a transmissão de um corrida de touros direto da Arena do Campo Pequeno, rapidamente se formou um grande movimento na Internet incentivando que os telespectadores entrassem em contato com a televisão para reclamar das transmissões.

Nesse contexto de polêmica e protestos que visam chamar a atenção para os maus-tratos sofridos pelos animais nesses eventos é que o Vegan Strike Group, grupo internacional do qual o ativista Peter Janssen faz parte, resolveu promover manifestações em Portugal. “Nosso grupo tem bons contatos com ativistas franceses, portugueses e espanhóis. O tema das touradas e as crianças está agora muito atual no Parlamento português e nós queremos proibir as touradas em toda a Europa”, explica Peter.

Na noite de quinta-feira, Peter invadiu a arena do Campo Pequeno e foi retirado rapidamente pelos seguranças do local. O momento da invasão foi gravado em vídeo e divulgado na Internet pelo Vegan Strike Group. Após ser retirado da arena, Peter foi conduzido para o lado de fora e, lá, foi agredido por um grupo de fãs das touradas. Um vídeo com mais de 8 minutos mostra a confusão e parte dos ataques sofridos pelo ativista.

“Eles me atacaram muito forte. É realmente uma vergonha usar tanta violência contra um protesto pacífico de um ativista. A polícia escreveu em seu reporte que ‘se nós não chegássemos a tempo para proteger Peter Janssen ele poderia ter sido morto’. Essas palavras dizem o suficiente, eu acho”, conta o ativista.

Peter foi conduzido pela polícia a um hospital onde passou a noite se recuperando das agressões. Em suas redes sociais, ele postou o atestado médico que recomendava repouso por possibilidade de traumatismo craniano. Apesar da reação violenta, o ativista promete que as manfiestações pacíficas vão continuar. “Com certeza essa não será a nossa última ação em Portugal contra o entretenimento com animais”, disse.

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