Em Julho, 45 animais selvagens vão ser devolvidos à natureza

corujaPúblico

As corujas-do-mato fazem frequentemente ninhos em edifícios abandonados. Depois, quando o proprietário faz obras e recupera a casa quer o ninho fora dali. As formas de o fazer vão desde a destruição do ninho à entrega do animal ao CERVAS (Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens) de Gouveia. “O importante é falar com as pessoas e explicar-lhe o que fazer, porque se não houver abordagem é muito complicado”, refere Ricardo Brandão, coordenador e veterinário do centro e um dos responsáveis pela devolução de uma dessas corujas à natureza, na passada sexta-feira, na Escola Superior Agrária de Coimbra.

Este animal não será único animal a regressar brevemente ao seu habitat. Ao todo, durante o mês de Julho, são 45 os que irão ser libertados. A maioria são aves, nomeadamente rapinas nocturnas, como as corujas-do-mato, os mochos-galegos ou as corujas-das-torres. Também há rapinas diurnas, como os milhafres-pretos ou os tartaranhões-caçadores, ou outras espécies como as cegonhas-brancas ou dos andorinhões.

Tudo começou no dia 1 de Julho com a libertação de seis cegonhas-brancas, na Mata Nacional do Choupal, e da coruja- do-mato. No dia 7, no Vale do Rossim, em Gouveia, será lançada uma coruja-do-mato e, no dia 9, um milhafre-preto no Luso, na Mealhada. Até ao final do mês, as restantes espécies serão libertadas nos locais onde foram encontrados ou em eventos e acções de sensibilização, como no aniversário do Parque Natural da Serra da Estrela, no dia 15, ou no dia dos Avós, em Forno de Algodres.

Os motivos do seu ingresso no CERVAS são diversos, desde a queda precoce de ninhos aos atropelamentos, cativeiro ilegal ou colisões. Em Maio, as entradas no centro começaram a aumentar. “A grande acumulação acontece desde Maio devido ao aumento da passagem pelo país de aves migratórias e, no caso do mês de Junho, com a saída dos juvenis dos ninhos”, aponta Ricardo Brandão. Desde o início de 2016, foram 302 os animais que ingressaram no CERVAS, sendo que a maioria tem sido entregue pelo Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA)  e pela GNR .

As aves libertadas não têm um nome, aliás, tenta-se estabelecer uma ligação distante entre os técnicos e as aves. “Nós só lhe damos nome de ingresso e colocamos a anilha”, refere o coordenador do CERVAS. Contudo, quem quiser pode apadrinhare atribuir um nome ao animal. “A maior escolha é nos mochos ou nas corujas pelo aspecto físico ou se conhecem alguma história”, destaca Ricardo Brandão. O custo do apadrinhamento é de 15 euros no mínimo, sem quotas.

O apadrinhamento pode ser feito no momento da libertação do animal, em que são convidadas as pessoas que encontraram os animais e diversas entidades. Sobre a envolvência das pessoas nessas acções, Ricardo Brandão sublinha que depende muito do sítio e do evento em que se insere. “Na Mealhada, onde há uma actividade paralela, podem vir a estar 1000 pessoas. Depois há aldeias onde se consegue que toda a população esteja presente ou há outras vezes em que está só uma família”. O coordenador do CERVAS dá o exemplo de Penalva de Alva (Oliveira do Hospital): “Na devolução de uma coruja-da-torre, toda a aldeia esteve presente”.

Se a acção do CERVAS culmina com a libertação das espécies, há todo um trabalho de bastidores feito durante o ano. Um dos projectos é Os cágados vão à escola. “A ideia é que os miúdos tenham uma abordagem mais informada sobre os cágados que têm em casa, a nível sanitário e da comida adequada”, indica o coordenador do CERVAS. Há também uma explicação sobre quais as tartarugas que podem ter em casa e, com isso, já foram descobertas e apreendidas 100 espécies ilegais pela GNR em lojas de animais. Por fim, os miúdos são sensibilizados para o problema de libertar os animais em qualquer lado. “Preocupa-nos que sejam libertadas tartarugas exóticas nos nossos rios porque entram no ecossistema e começam a competir com as espécies autóctones ameaçando-as através, por exemplo, da predação dos peixes que estão na cadeia alimentar dos cágados”, aponta.

enta-se fazer educação ambiental junto de toda a população, mas o diálogo nem sempre é fácil. “Sempre que a espécie acarreta prejuízo, é difícil convencer que não devem cometer determinadas acções”, afirma Ricardo Brandão, destacando o caso do tartaranhão-caçador, que faz o ninho no chão dos campos de pasto. “Outro dia, um senhor em Figueira de Castelo Rodrigo matou uma cria quando estava na debulha, mas assim que reparou nas restantes três crias recolheu-as e entregou-nos os animais”, conta o coordenador.

O CERVAS de Gouveia funciona desde 2006 e dedica-se à recuperação de animais selvagens e à educação ambiental. Está localizado no Parque Natural da Serra da Estrela e, desde 2009, está a cargo da Associação ALDEIA, em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a ANA – Aeroportos de Portugal.

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