A triste história por trás das ‘visitas’ de animais a instalações olímpicas no Rio

jacareBBC Brasil

Jacarés, preguiças, capivaras e cobras são algumas das visitas inesperadas que surgem em campos do Parque Olímpico, no Rio de Janeiro.

Tanto que a Rio 2016 é a primeira Olimpíada que tem um grupo especializado em gerenciamento animal. Essa novidade se tornou estritamente necessária por conta da grande presença de animais, especialmente silvestres, nas proximidades das principais instalações olímpicas.

A BBC Brasil ouviu biólogos e outros especialistas para identificar por que esses animais estão aparecendo na região com tanta frequência?

A área onde ocorre a maior parte dos treinos e competições e receberá cerca de 120 mil pessoas até o fim dos jogos é cercada por lagoas e uma vasta vegetação.

A região é monitorada por um grupo de biólogos que já fez imagens de animais como o jacaré-de-papo-amarelo, ameaçado de extinção, nadando em esgotos, descansando sobre o lixo flutuante e até com saco plástico preso no pescoço.

Relatos de jacarés e cobras nadando em piscinas e rastejando em quintais de condomínios também não são incomuns naquela área.

Perda de espaço

De acordo os especialistas, essas espécies perderam parte do habitat natural após o avanço imobiliário e agora estão procurando um novo lugar para viver.

A perda de espaço e a devastação não são novidade. Os biólogos afirmam que o processo começou a ficar mais grave há 30 anos e atingiu agora um nível crítico, atingindo diversos animais.

“O uso irregular de terra ou mau planejamento causou imensos prejuízos também para pequenos animais como caranguejos, aves, peixes e insetos que afetam toda a cadeia”, afirma a geóloga Silma Cardoso de Santa Maria, que trabalha na conservação da área, à BBC Brasil.

Embora a presença desses animais na vizinhança das arenas seja motivo de preocupação de ambientalistas e da imprensa internacional, a gerente de Sustentabilidade, Acessibilidade e Legado da Rio 2016, Tania Braga, minimiza os riscos.

Quando, em outubro do ano passado, uma assistente a alertou sobre um vídeo que mostrava um jacaré nas proximidades do Campo de Golfe Olímpico, ela apenas abriu um sorriso.

Em entrevista à BBC Brasil, Tania Braga afirma que essas “visitas” eram previstas.

“Para mim, era uma validação do trabalho que tínhamos feito para promover uma convivência harmoniosa com a fauna nos arredores das instalações olímpicas”, afirmou.

“Não vi isso como um problema, mas sim um sinal de que estávamos cumprindo a missão de recuperação ambiental da área”, conta Tânia, referindo-se ao fato de o terreno do campo ter anteriormente abrigado uma antiga fábrica de cimento par depois se tornar uma instalação olímpica.

Carta branca

No Parque Olímpico da Barra, a construção de uma cerca de segurança para evitar a entrada de invasores humanos serve de obstáculo para os jacarés. O maior risco de contato imediato por lá, no entanto, atende pelo nome de Quero-Quero – uma pequena ave que não faz cerimônia para colocar seus ovos em locais próximos à passagem do público e pode fazer ainda menos para bicar curiosos.

Tania Braga afirma que nem por isso os animais têm carta branca para passear pelas arenas olímpicas. As instalações contam com gestores ambientais em tempo integral para monitorar possíveis casos de aproximação que, segundo ela, são pontuais.

“Se houver necessidade de resgate de animais, contamos com equipes profissionais que possam levá-los para um local seguro. Nosso objetivo nunca foi separar a presença do animal, mas gerenciá-la de forma que pudéssemos protegê-los e dar visibilidade para que visitantes possam conhecer e admirar”, completa.

A dirigente afirma ainda que há placas avisando os visitantes sobre a presença dos animais.

Para o biólogo Izar Aximoff, “a expansão urbana carioca devastou o habitat natural dessas criaturas”. Antes uma cidade considerada verde, na metrópole hoje existem poucos remanescentes florestais.”As pessoas passaram a morar cada vez mais próximo e às vezes dentro de onde os animais vivem. Na verdade, nós é que invadimos o território deles”, concluiu.

Recuperação

A geóloga Silma Cardoso de Santa Maria também faz parte do projeto Corredor Verde do Recreio, que desenvolve ações de recuperação ambiental na região da Barra da Tijuca, como o plantio de árvores nativas na região e recuperação de pontos de descarte de lixo. Mas, para ela, a participação dos moradores é um dos principais fatores para que o projeto tenha sucesso.

“É essencial o apoio da sociedade apoderando-se num exercício de cidadania da natureza e do ambiente cultural onde reside. Chegamos a um nível muito crítico. Ver animais perdendo seu espaço e tendo de ir buscar seu alimento no esgoto é muito triste”, afirma Maria.

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