“Cães terapeutas” ajudam a melhorar a auto-estima e a confiança

cao psicologiaPúblico

Por Susana Pinheiro

“Dona Ni, quer um beijinho do Miles?”, pergunta, entre risos, Catarina Cascais, do projecto Ladra Comigo, a Conceição Portal, 93 anos, que solta uma enorme gargalhada quando o “beijoqueiro” cão a lambe e a molha com baba. A gargalhada de Conceição Portal contagia de alegria as outras utentes do Abrigo Nossa Senhora da Esperança (ANSE), na Maia, que, tal como ela, participam nas sessões semanais de terapia assistida por animais.

O objectivo da psicóloga Catarina Cascais e da colega do projecto, a gerontóloga Clara Cardoso, é ajudar a combater os estados depressivos, de ansiedade e solidão destes idosos. É aqui que entram em acção os “cães terapeutas” nas sessões que duram cerca de 45 minutos. Com a psicóloga “trabalha” o “pachorrento” Miles, quatro anos, um cão da Terra Nova preto e de grande porte, com os seus 80 quilos.

“Costumo dizer que é um cão de bolso”, diz Catarina Cascais em jeito de brincadeira, explicando que noutras alturas leva a Safira, uma cadela de sete anos, resultante do cruzamento de uma perdigueira portuguesa com um galgo. Já a gerontóloga Clara Cardoso trabalha, de forma alternada, ora com a “gulosa” Milú, de raça labrador retriever, com os seus quatro anos cheios de energia, muito brincalhona, ora com a Laika, uma “sem raça” da mesma idade que foi recolhida de uma associação de resgate animal.

Desta vez, a Safira e a Laika ficaram do lado de fora dos portões da residência sénior. “Cada uma das terapeutas só pode trabalhar com um cão de cada vez”, explica a psicóloga do Ladra Comigo, enquanto segura a trela do enorme Miles e Clara a da Milú, “com o seu jeito expressivo, sempre a inclinar a cabeça como se percebesse o que lhe dizem”.

Contam que já há meio ano percorrem aqueles corredores enquanto a educadora social do ANSE, Daniela Rebelo, avisa que as utentes estão muito ansiosas com a vinda dos “cães terapeutas”.

Trabalhar a memória e a comunicação

“Aí vêm eles!” — escuta-se uma voz vinda da sala ao fundo do corredor, onde os esperam Cândida, 92 anos, Gina, 74 e Conceição. Costumam ser dez ou 15 utentes. Hoje só lá estão as três. Quando o Miles e a Milú entram sala adentro, arrancam-lhes logo sorrisos rasgados. “Fico tão contente quando vêm e depois fico triste quando se vão embora”, desabafa Cândida, enquanto faz uma festa ao Miles e conta que gosta de lhes dar biscoitos e escovar o pêlo e os dentes. Catarina vai logo avisando que não são só os utentes que ficam tristes: “Olhe que eles também ficam quando vão embora.”

Mas Cândida, continua a educadora social, “fica muito no mundo dela, triste, com um rosto muito carregado depois de os cães irem embora”. “Eles influenciam o seu estado de humor e auto-estima. Fica logo mais comunicativa com a presença deles.”

No Ladra Comigo, diz Catarina Cascais, “o animal é importante para promover o desenvolvimento social, emocional, físico e cognitivo” dos utentes. A presença dos cães melhora a capacidade de socialização e autoestima. Neste lar também se trabalha a memória e a interacção. Gina, uma das utentes, conta: “Fazemos jogos, como montar o arco colorido para os cães atravessarem, o que acaba por nos distrair e quebrar a rotina e monotonia.” A educadora social Daniela tenta estar sempre presente nas sessões que fomentam a comunicação entre os idosos. “Com os cães, acabam por interagir mais uns com os outros.”

Os encantos do “Prince Charming”

Sentada na cadeira de rodas e com um grande sorriso, Gina lá vai perguntando pela Safira: “Não veio hoje? Que pena!”

Catarina responde-lhe que “ficou lá fora”, enquanto avisa: “Ó Miles, não sujes a Dona Gina!”, mas já não vai a tempo. O “cão terapeuta” vai largando baba em cima de todos os que lambe, ainda que tenha um babete com os dizeres “Prince Charming” — sendo que a imagem do “príncipe encantado” lhe assenta que nem uma luva: “É doce, muito meigo e tem prazer com este trabalho assim como os outros três ‘cães terapeutas’”, acrescenta Catarina Cascais, que garante que “o comportamento deles se modifica a partir do momento em que lhes é vestido colete de trabalho no dorso, com a inscrição cão de actividades, porque percebem que vão trabalhar”.

Na hora da despedida, os cães são recompensados com biscoitos, uma corrida ou brincadeiras. Fora dos portões espera-os Jorge Mendes, 21 anos, utente da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM), no Porto. Precisamente o primeiro local onde o Ladra Comigo arrancou, em 2014, depois de Catarina e Clara terem tirado o curso de intervenções assistidas por animais na Ânimas — Associação Portuguesa para a Intervenção com Animais de Ajuda Social.

Quando começaram, Catarina com o Miles e Clara com a Milú, não se conheciam. Mal elas sabiam que iriam, no final das 104 horas de formação, depois de certificadas, alinhavar juntas um projecto e dar a volta à situação de desemprego em que ambas se encontravam. “Uma das vantagens deste curso é aprendermos a comunicar com os cães e eles connosco. A maior parte deles morde por medo”, afirma a psicóloga, garantindo que “os cães do projecto têm seguro, vacinas em dia, licenças, certificação”.

“Falta legislação”

Mas não foi fácil. “Batemos a muitas portas e muitas pessoas desconheciam a realização de intervenções assistidas por animais e os seus benefícios”, recorda Catarina Cascais. Mais, assegura, “não existe legislação em Portugal, ainda que a Ânimas continue a batalhar por isso”. Diz, de resto, que há muitas pessoas não certificadas a trabalhar na área.

Na APPACDM, as duas amigas fazem terapia com cães com um grupo de dez utentes e actividades assistidas por animais com um segundo grupo de pessoas com multi-deficiência onde se inclui Jorge Mendes, que tem um atraso cognitivo e alguns problemas de motricidade.

“Sou uma mãe babada, porque o meu filho tinha muitas dificuldades em baixar-se. Os jogos, como o do túnel colorido que têm de atravessar de gatas, ajudam-no a ultrapassar essas dificuldades”, afirma Luzia Magalhães, mãe de Jorge.

Ao contrário do que se passa com a terapia assistida por animais (que é parte integrante de um processo de tratamento), as chamadas actividades assistidas por animais não têm objectivos terapêuticos, mas sim lúdicos, motivacionais e educativos. “Não conhecia e nunca pensei que tivesse estes resultados, porque o meu filho melhorou de oito para oitenta”, diz Luzia Magalhães. “Aprendeu a gerir as emoções e, enquanto antes era agressivo com a cadela que temos em casa, agora até já lhe pede desculpa.”

Abraçado a Catarina, Jorge vai-lhe dizendo: “Gosto muito de vocês. São um amor!” E lembra que foi ele quem baptizou de “polícia e ladrões” o jogo que jogam com os cães. “Eles ladram e nós temos de parar, tipo jogo da estátua”, conta, entusiasmado por “ganhar sempre”. Conta também que gosta “muito dos beijos do Miles” e que até já lhe escovou “os dentes, o pêlo e a cauda”. A psicóloga diz que o projecto também ajuda a estimular a higiene pessoal.

A presidente da APPACDM, Teresa Guimarães, crê nos benefícios da intervenção assistida por animais que arrecada aplausos de utentes e pais. “Os utentes transformam-se com os animais, ganham mais à vontade e autonomia. E repare que temos doentes com paralisia cerebral.”

Projecto com provas dadas no terreno

As mentoras do Ladra Comigo citam estudos que demonstram que a presença do animal fomenta a expressão de emoções, maior capacidade de comunicação, interacção social, interesse, aumento da concentração e memória. Além da melhoria do funcionamento cardiovascular e respiratório. O alívio de sentimentos de medo, solidão e isolamento, a diminuição de percepção de dor, o aumento do nível de endorfina e a estimulação táctil são mais algumas das mais-valias, acrescentam.

Catarina e Clara garantem ter provas disso no terreno. Lembram, por exemplo, Leonor, seis anos, portadora de autismo, utente da terapia assistida por animais, como os idosos do lar da Maia. Está sempre ansiosa pelo dia em que “brinca com os cães”, que é como os participantes no Ladra Comigo se referem às actividades. “Retira o peso de pensarem que vão à terapia, ao psicólogo”, explica Catarina, enquanto segura Miles pela trela.

A mãe de Leonor, Sílvia Pereira, só tem a dizer bem das terapeutas e dos cães que “são uma grande ajuda, porque a filha fecha-se um pouco no mundo dela e tem dificuldade em exprimir-se”. “Mas com os ‘cães terapeutas’ já comunica e passou a estar mais concentrada, calma. Tem uma grande necessidade de movimento, mas passou a conseguir estar mais tempo sentada.”

A psicóloga explica que quando há um ano começaram a terapia, Leonor não conseguia sequer pegar num lápis. Agora já o faz. Mas nem tudo é um mar de rosas, porque há dias em que a Leonor está mais irritada e intolerante.

Sofia tinha ataques de pânico

Sofia (nome fictício), nove anos, foi vítima de bullying pelas colegas de turma numa escola do 1.º ciclo do Porto. A mãe Ana (nome fictício) não se conforma com o sofrimento que causaram à filha que, de há dois anos a esta parte, frequenta a terapia assistida por animais. No início Ana ainda pensou que era birra, mas logo depois apercebeu-se que era bem mais grave: “Tinha ataques de pânico, porque não queria ir à escola. As colegas diziam ‘Tu não prestas, não serves para nada’. Faziam chantagens.” Mudou-a de escola, mas, “por azar, a nova professora gozava com ela e, por consequência, os colegas de turma”.

Agora vai para o 5.º ano. As marcas do que se passou com ela ainda estão presentes. Mas desde que faz terapia assistida por animais, Sofia passou de uma miúda muito introvertida, com baixa auto-estima e confiança, para outra bem diferente que já desabafa e consegue relaxar com a presença dos cães. “Ela lê-lhes livros”, conta Clara Cardoso. “Também já se defende e responde aos colegas”, acrescenta a mãe, enquanto Clara explica que “tal como é preciso repreender o cão quando se porta mal, Sofia aprendeu que também o deve fazer com os colegas quando fazem algo injusto”.

Além da terapia e das actividades assistidas por animais, as duas mentoras do Ladra Comigo também intervêm ao nível da educação assistida por cães, nomeadamente no ensino especial. As actividades são desenvolvidas em equipa multidisciplinar com profissionais das áreas da educação e saúde. “Definem-se objectivos pedagógicos adaptados a cada aluno e a introdução do animal facilita muito o processo de aprendizagem e educativo”, conclui Clara, enquanto tira mais um biscoito da bolsa de recompensas, que tem à cintura, e o dá a Milú.

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